sexta-feira, 25 de agosto de 2017

DE CACHORRO A RABO



Em geral o rabo não abana o cachorro, é o cachorro que abana o rabo.
(Gilmar Mendes, a propósito da concessão de um habeas corpus)

Se algum pudor ele tinha
de ser pau para toda a obra,
não mentiu a vocação
quando — imperdoável galinha
a chocar ovo de cobra —

se sentou, ministro e rei,
levando a coisa ao extremo
(e indo de choco a bufão),
com o seu traseiro supremo,
sobre um projeto de lei.

Nisto ficou ano e meio
o invencível falastrão,
como se o ovo que chocava
contivesse por recheio
um filhote de dragão.

Agora, pelo que entendo,
quer inovar no guisado:
vai, de bocudo a mandrião,
dizer com ar debochado
assuntos que não remendo.

Pretende a cauda abanar
(ou com ela ir se abanando).
Mas nisso acho suspeição,
conforme vou reparando
nesta quadra singular:

pois o que ele tem de rabo
(que mais o alonga que abana),
sob o calor da estação,
é como a língua que o dana:
já o tem preso com o diabo.

Inspirado num poema de Lourival Piligra Júnior

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

PRONTIDÃO



A Justiça Federal deferiu pedido liminar do vereador do DEM Alexandre Aleluia e barrou a entrega do título de Doutor Honoris Causa ao ex-presidente Lula (PT), a ser concedido na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB).
(Notícia do 24/7)

Filho do Missa* foi quem arranjou
ordem assim tão pronta e tão certeira
que, não fosse em comarca brasileira,
se diria: “É uma espinha que estourou,

bomba que algum suicida arremessou!”
Mas não: foi coisa simples, rotineira,
como coar uma areia na peneira;
e disso nenhum santo se queixou.

Tais são, para quem não tem experiência
em coisas de justiça tropical,
os modos de exibir crivo e tenência.

E tais os modos de se defender
em terra pátria a pública moral —
sempre em vias de arder e perecer.

* Alcunha do deputado José Carlos Aleluia, pai do vereador Alexandre Aleluia, na lista de propinas da Odebrecht.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

VAI DAR M… COM O MICHEL




Vai dar merda com Michel.
(Eduardo Cunha, em mensagem de celular interceptada pela polícia)

O golpe, de vento em popa,
avançava em mar calmoso,
como em suave carrossel;
mas agora, caída a máscara,
vê-se o fundo tormentoso:
vai dar tilte com o Michel!

Eram bichos ainda mansos,
com uma cabeça cada um,
desde o pato à cascavel;
porém agora está claro
qual o bicho desse jogo:
vai dar zebra com o Michel!

Se o Brasil tinha esperança
de aumentar o seu pecúlio
e engordar o seu farnel,
só uma coisa hoje é patente,
e aqui a digo sem orgulho:
vai dar erro com o Michel.

Quando ligada, a tomada
carregava a bateria
e enrolava o carretel;
mas agora, roto o cabo,
surge o enrosco à luz do dia:
vai dar curto com o Michel.

Se com o Collor não deu certo
e com o Sarney deu pior,
(com problemas a granel),
a verdade é transparente –
tome nota, por favor:
vai dar rolo com o Michel!

Quem o diz é o tal de Cunha,
que bem sabe do riscado
e entende bem o papel:
que entre o vento e a tempestade,
entre a procela e o tornado,
vai dar merda com o Michel!

sábado, 5 de agosto de 2017

O CASAMENTO



Agradeço a todos que fizeram parte dessa noite memorável.
(Deputada Maria Vitória, na revista Caras)

Foi de fato um bonito casamento
a que eu teria até comparecido,
não fosse por assuntos impedido
de salvar minha pele em outro evento.

Rico. Mas desandou no encerramento,
sob a tal chuva de ovos, sem partido,
cujo odor estragou o teu vestido,
com o apupo do povo de incremento.

Não sei se isso é o que estás a agradecer,
esse quase omelete que o teu pai
te ajudou, impassível, a bater.

(Em casa certamente teve um troço,
apesar desse arzinho de bom moço
cuja foto na Caras nos distrai.)

Mais aqui

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

TATUADO



Deputado Wladimir Costa tatua no ombro direito inscrição ‘Temer’
(Notícia do G1)

“Locupletar-se” é o termo mais correto
para esta circunstância, tão frequente.
E aqui me ocorre a ideia, procedente,
de lavrar tal assunto num decreto.

Lembrou-me até uma antiga agremiação
japonesa, que disso faz gritante
sinal de compromisso, o mais galante
(e o havemos de imitar noutra ocasião).

Vede: sem que ninguém puxasse a corda,
foi e gravou — por gesto de amizade —
na própria pele o crivo da lealdade.

Tatuou “Temer” num ombro, em letra gorda —
e acho bem, pois cada um faz o que gosta.
(Mas eu em braço meu não gravo “Costa”.)

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O LEMA



Agenda da Câmara é a do mercado, sustenta Rodrigo Maia
(Valor Econômico)


Isto, sim, considero um grande lema:
esse assunto de feira, de mercado,
de comprar no varejo ou no atacado,
indo ao limite, sem qualquer problema.

O rechonchudo é exímio em dar o tema,
até porque tem baixo eleitorado,
e não teme estragar o seu guisado,
do qual a cara é o mais perfeito emblema.

Dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe todas,
porquanto no balcão onde barganho
tudo são ventos, passageiras modas.

(Exceto para aquele que tatuou –
bravo! – o meu nome no ombro, em bom tamanho,
com tinta permanente, até jurou!)


quarta-feira, 10 de maio de 2017

NOVA OCUPAÇÃO



sobre notícia publicada há tempos na imprensa brasileira

Descido já do trono onde pousou
como um galo vistoso em temporada
de ração gorda, D. Joaquim logrou,
depois de aposentado, outra barbada:

dar palestras a preço inflacionário
para quem, tendo em mãos "ouro" de sobra,
acha excelência em tão incrível obra
e quer aprender logo o receituário.

Voltou à vida! — o bravo, promovido
pela energia nova do tostão,
que há de levá-lo à lua, decidido,

no foguetinho da ética veloz:
duro peixe apregoado à multidão
como do crime e do malfeito — algoz.