sexta-feira, 19 de agosto de 2016

LIÇÃO DE ECONOMIA




É preciso deixar crescer o bolo
e depois dividi-lo. E, enquanto cresce,
vamos comendo a grama que enverdece
e outras coisinhas tenras que há no solo.

É preciso esperar pelo fermento
e que a massa avolume e ganhe viço,
e enfim dê bolo; mas, enquanto isso,
vamos comendo alfafa, palha e vento.

É preciso esperar que o forno aqueça
e que todo o fenômeno aconteça,
e a massa encorpe, calorosa e lisa.

E, enquanto isso, nos vamos aguentando,
a comer o maná que Deus vai dando,
com saladas de grama, palha e brisa.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

AMANTES DE LÍNGUA (II)




"Nesta vida, o que importa é estar por cima,
navegar sempre a crista de cada onda,
furando a cerração que nos esconda,
sempre em busca do sol, que nos anima.

Sobretudo, é preciso ter tarimba:
sim, caros, e ganhar envergadura,
tratando de engolir literatura
com abundância, à farta, e sem catimba.

Começar cedo — eis a lição preciosa,
pois é de jovem que o pepino entorta
e ganha corpo lá no fundo da horta.

Data venia, sou mestre nesta coisa:
conheço-a desde os tempos de estudante;
trato-a como um Don Juan, como um amante!"

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA — XV



aos oportunistas que desfecharam o golpe de estado de 2016 no Brasil

Uma egrégia assembleia
de impolutos bandidos
julgou a presidenta
naqueles tempos idos.

Em nome dos parentes,
da matrona do lar,
dos primos e dos tios,
do neto por chegar;

dos amigos da casa,
da cidade natal
(cuja bandeira ergueram,
com um gesto triunfal);

dos pobres e famintos,
e também dos valentes
corretores de imóveis
(que não tinham parentes);

do futuro empenhado
de todas as criancinhas,
e das magras pensões
das magras avozinhas;

ou da mais que difícil
paz de Jerusalém,
e do nobre marido,
e de não sei mais quem;

e do irado combate
à horrenda corrupção
que só os fracos seduz,
porém os puros não;

e em nome da moral
e da ética exemplar,
e do insigne desejo
de o mundo consertar —

expediram, naquela
tarde escura, anormal,
sob o mando de um capo,
a sentença fatal.

E houve lenha, e houve fogo,
e houve pedir a Deus
por luz e tirocínio
e pelo bem dos seus.

Uma egrégia assembleia
de impolutos bandidos
julgou a presidenta
naqueles tempos idos.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A SERPENTE




Seu ovo se chocou numa bacia
de dólares, ao fundo de uma gruta.
E o filhote — trazido à luz do dia
e cuidado, à maneira de uma fruta

exótica, com zelos admiráveis,
por trezentas babás (que o conduziram,
levando-o ao povo, extremas e amoráveis) —
mordeu furioso aqueles que o nutriram.

Hoje se dissemina de tal modo
sua peçonha pelos quatro cantos,
que envenena — acredito — o mundo todo.

(E antídoto não há para o seu dente,
que vai corroendo a carne internamente
e se reproduzindo em outros tantos.)

O PATO (II)




Desfilava esse pato, empavonado,
há tempos, na avenida; mas, agora
quem seu fôlego inflava foi embora,
deixando-o lá, de murcho a desbotado,

a boiar sobre um lago inflacionado,
qual passageiro que perdeu a hora
e, acreditando que o ônibus demora,
espera ainda no ponto, equivocado.

(Pato que não queria se pagar
e no entanto custou a toda a gente
bem mais do que os prejuízos a evitar.)

Ouve, amigo: esse pato, assim gigante,
é cavalo de Troia de meliante,
deixado à nossa porta, de presente.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

MARCHA A RÉ




A desculpa de que não foi possível notificá-la por não saber seu endereço é uma das coisas mais ridículas da história da Lava Jato e do golpe.
(Paulo Nogueira)

Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa.
(Barão de Itararé)

Ficou chato entender que o caçador,
tão presumido a isento e destemido,
ande assim ressabiado, assim sumido,
com medo de um bichinho sem valor.

Mas era um tigre, um cangambá fedido,
era um portento, um disco voador,
era o leão de Nemeia, rugidor,
ou o javali de Lerna, enfurecido?

Sei que o valente não entrou na loca
e apenas disse, já engatando a ré,
que não tinha o endereço dessa toca.

(E aqui talvez — torcendo o Itararé —
caiba a regra: mais vale um tigre falso
na coleira, que dois em nosso encalço.)

PONTE PARA O FUTURO




A ponte para o fundo do futuro
ficou pronta afinal: quem tem coragem
que faça logo a temerária viagem,
tomando impulso de saltar no escuro.

Ficou pronta, e a estrutura foi armada
com muita chicanice e atrevimento.
(E também há de ser pavimentada
com os ovos de serpente do momento.)

Vai, Cristovão! Vai, Marta! Vai, Aecim!
Ide todos, levando esse cortejo, 
pois já assovia a flauta de Hamelin.

Levai o povo à ponte, que é comprida
e tem por “ponto” uma angular descida
cujo fundo não sondo nem prevejo.