terça-feira, 24 de outubro de 2017

DENODO



A Lava Jato alcançou grande sucesso (...) quando se limitou a investigar a trama de relações promíscuas instalada na máquina do Estado desde que o PT chegou ao poder.”
(Editorial do Estadão)

Sim, só prestou enquanto, diligente,
perseguiu o inimigo pretendido,
dosando bem a ação “inteligente”,
"sofisticada", e aquém do teu partido.

Agora que o mocinho — adolescente
em coisas de política e aguerrido —
quer lavar com o seu próprio detergente
todo o resto, num surto desabrido,

sais a cuspir, com a ansiedade amarga
de quem não devorou o bolo todo,
a indignação que o esôfago te embarga.

Belo gesto — sublime! — de denodo,
que só não babo com maior louvor
porque agora me falta o escarrador!

(In: Indigestos e purgativos, versão final)

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

COMPOSIÇÃO QUÍMICA




Nem o Conselho Regional de Nutricionistas nem o Ministério Público de São Paulo sabem ao certo a composição do composto alimentar.
(Blog da Cidadania)

Sei do que se compõe essa coisinha:
uma parte é de egoísmo e inconsequência
(mal disfarçados na ilusão da ciência),
e outra de pretensão, que ali cozinha.

Outra parte (conforme se adivinha)
é o tempero da inépcia ou displicência,
que leva de roldão a inteligência,
desidratada em forma de farinha.

A outra parte — expressiva porcentagem —
é, por certo, o pendor à vilanagem,
que não respeita altura nem limite.

E a outra, claro, é o risível atropelo,
que o neologismo oculta e bem permite —
decompondo-o em insípido farelo.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

PASSO A VEZ!




Em Milão, Doria defende alimento reprocessado para mais pobres: ‘É o mesmo dos astronautas’
(UOL Notícias)

Qual há de ser o efeito dessa coisa
para o cérebro, o estômago e o intestino,
mal suponho! Mas sei que outro destino
se reserva a uma treta assim vistosa.

Dar ao pobre, com mão nada amorosa,
como se fosse um biscoitinho fino,
ração que vem de puro desatino
é invenção que me soa tormentosa.

Desisto, passo a vez e já me canso!
E sigo em busca de outro pretendente
para ocupar o cargo em que balanço.

Pois sei que a carestia não é tanta,
nem valor tão mais alto se alevanta,
que justifique agir como um demente!

(In: Indigestos e purgativos, versão final)

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

IMPROVISO DOS 140



Ele acha que pode, que deve,
e vem dizer que cabe e quadra —
não importa qual seja a quadra,
não importa se pode ou deve.
Ele diz o que a boca aventa,
e acelera a cento e quarenta!

Ele pensa que a vida é longa
e que não há nada que a encurte.
E não há tesoura que o encurte
quando na miragem se alonga.
Ele supõe que a mente aguenta,
e passa dos cento e quarenta!

Ele disse que a Previdência
vai explodir a qualquer hora,
e que por isso já está na hora
de implodi-la, por previdência:
disse-o com a pachorra isenta
de quem vai a cento e quarenta!

É por não ter papas na língua,
(embora a tenha destapada)
que diz, com calma destapada,
essas coisas que vêm à língua.
Mas um dia o saco arrebenta,
se desmancha em cento e quarenta!

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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

DE CACHORRO A RABO



Em geral o rabo não abana o cachorro, é o cachorro que abana o rabo.
(Gilmar Mendes, a propósito da concessão de um habeas corpus)

Se algum pudor ele tinha
de ser pau para toda a obra,
não mentiu a vocação
quando — imperdoável galinha
a chocar ovo de cobra —

se sentou, ministro e rei,
levando a coisa ao extremo
(e indo de choco a bufão),
com o seu traseiro supremo,
sobre um projeto de lei.

Nisto ficou ano e meio
o invencível falastrão,
como se o ovo que chocava
contivesse por recheio
um filhote de dragão.

Agora, pelo que entendo,
quer inovar no guisado:
vai, de bocudo a mandrião,
dizer com ar debochado
assuntos que não remendo.

Pretende a cauda abanar
(ou com ela ir se abanando).
Mas nisso acho suspeição,
conforme vou reparando
nesta quadra singular:

pois o que ele tem de rabo
(que mais o alonga que abana),
sob o calor da estação,
é como a língua que o dana:
já o tem preso com o diabo.

Inspirado num poema de Lourival Piligra Júnior

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

PRONTIDÃO



A Justiça Federal deferiu pedido liminar do vereador do DEM Alexandre Aleluia e barrou a entrega do título de Doutor Honoris Causa ao ex-presidente Lula (PT), a ser concedido na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB).
(Notícia do 24/7)

Filho do Missa* foi quem arranjou
ordem assim tão pronta e tão certeira
que, não fosse em comarca brasileira,
se diria: “É uma espinha que estourou,

bomba que algum suicida arremessou!”
Mas não: foi coisa simples, rotineira,
como coar uma areia na peneira;
e disso nenhum santo se queixou.

Tais são, para quem não tem experiência
em coisas de justiça tropical,
os modos de exibir crivo e tenência.

E tais os modos de se defender
em terra pátria a pública moral —
sempre em vias de arder e perecer.

* Alcunha do deputado José Carlos Aleluia, pai do vereador Alexandre Aleluia, na lista de propinas da Odebrecht.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

VAI DAR M… COM O MICHEL




Vai dar merda com Michel.
(Eduardo Cunha, em mensagem de celular interceptada pela polícia)

O golpe, de vento em popa,
avançava em mar calmoso,
como em suave carrossel;
mas agora, caída a máscara,
vê-se o fundo tormentoso:
vai dar tilte com o Michel!

Eram bichos ainda mansos,
com uma cabeça cada um,
desde o pato à cascavel;
porém agora está claro
qual o bicho desse jogo:
vai dar zebra com o Michel!

Se o Brasil tinha esperança
de aumentar o seu pecúlio
e engordar o seu farnel,
só uma coisa hoje é patente,
e aqui a digo sem orgulho:
vai dar erro com o Michel.

Quando ligada, a tomada
carregava a bateria
e enrolava o carretel;
mas agora, roto o cabo,
surge o enrosco à luz do dia:
vai dar curto com o Michel.

Se com o Collor não deu certo
e com o Sarney deu pior,
(com problemas a granel),
a verdade é transparente –
tome nota, por favor:
vai dar rolo com o Michel!

Quem o diz é o tal de Cunha,
que bem sabe do riscado
e entende bem o papel:
que entre o vento e a tempestade,
entre a procela e o tornado,
vai dar merda com o Michel!