quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

INDIGESTOS E PURGATIVOS



Meu uso do Alvorada é culinário,
conforme se constata: uma cantina
capaz de inundar todo o noticiário
com a sopa que ali ferve, grossa e fina.

E, dada a profusão do receituário
diante do qual a imprensa se alucina,
posso afirmar que tal poção, supina,
faz mais efeito lá do que no armário.

Assim é que, sem medo de acidentes,
da cozinha abrirei a porta imensa,
e a farei um santuário para os crentes. —

Eis a minha arte: cozinhar na banha
todo o langanho que haja na despensa,
para suprir essa avidez tamanha!

(Soneto I)

Coletânea com 54 sonetos satíricos de Renato Suttana. Lançamento em formato eletrônico, à venda no site da Amazon. Para adquirir, clique aqui.

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segunda-feira, 21 de novembro de 2016

MESOCLÍTICO



Oswaldiando...

Me dá salário
Diz o professor
Me dá escola
Diz o jovem
Me dá comida
Diz o pobre
Da Nação Brasileira
Mas o velho político
Que só entende de romance
Diz a todos
Dar-vos-ei uma banana.

domingo, 20 de novembro de 2016

SOLUÇÃO



Depois de desistir de enfrentar Porchat, Mendonça Filho sai de debate pela porta de trás
(Notícia do JB)

Quando não se é nenhum valente
e só se tem, para a ocasião,
uma mistura de medo e onça
que se atrasa na contramão,
sair pela porta dos fundos
é sempre a melhor solução.

Quando no pasmo se acinzente
nosso trépido coração
diante da realidade esconsa,
que não nos pede opinião,
fugir pela porta dos fundos
é sempre a melhor solução.

Quando nosso ânimo aparente,
sempre a anos-luz da decisão,
como uma obscura gerigonça,
emperra e já não sai do chão,
sair pela porta dos fundos
é sempre a melhor solução.

Quando nosso brio cadente,
que um dia se supôs de leão,
numa órbita confusa e sonsa,
vai girando sem direção,
fugir pela porta dos fundos
é sempre a melhor solução.

Quando nossa coragem mente
e finge a audácia de um leão
(com uma desfaçatez intonsa
que oculta um naco de irrisão),
correr para a porta dos fundos
é sempre a melhor solução.

sábado, 19 de novembro de 2016

QUADRILHA



João delatou Teresa que delatou Raimundo
que delatou Maria que delatou Joaquim que delatou Lili
que também delatou e delatou.
João foi indultado e mora nos Estados Unidos,
Teresa foi indultada e é madre superiora de um convento,
Raimundo foi indultado e morreu num acidente de esqui em Bariloche,
Maria teve cem anos de perdão e viu seus filhos e netos crescerem,
Joaquim voltou ao crime e Lili delatou J. Pinto Fernandes
que, tendo pago propina a todos para ganhar concorrências
em que todos pagavam propina,
mas não tendo a quem delatar,
pegou 120 anos de cadeia.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

BUFOGERIATRIA




Dom Judas foi à Feira
de Frankfurt, velha e fria,
e com seu ar mais sério
(coisa que bem valia
criar um Ministério
da Seriedade — penso)
declarou frente ao povo
que lá esteve, suspenso
pela orelha indiscreta,
com grande novidade
a sua qualidade
de inefável poeta.
Depois foi à tevê
e disse aos jornalistas
(que, sem causa e porquê,
o aplaudiram, farristas)
que anda agora escrevendo
romance desta vez
(que, a julgar pelo jaez
daquela Intimidade,
‘promete’, muito embora
já esteja em andamento
outro romance agora,
que, entre a farsa e a paródia,
é só bufa rapsódia,
que a realidade escreve).
Ao contrário do elance
de entusiasmo que teve
a Eliane Cantanhêde,
não sei se de romance
Dom Judas tanto entende.
(Talvez seja somente
prurido ou faniquito
de velho que não sabe
onde mete — ou pretende
meter futuramente —
o idoso periquito.)
Numa coisa, entretanto,
ele é mestre, bem sei,
senão que especialista:
é em provocar espanto,
fazendo o mundo arder
e ludibriando a lei,
conforme bem quiser;
além, claro, dessa arte
(que merece um Molière)
de criar, para o alumbrado
jornalista da Folha,
de Veja, Globo e Estado 
como um roto estandarte —,
um teatro, frágil bolha,
em que ele é o centro, a estrela,
o rei sol da lapela.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

LITE-RA-RA-RA-TURA



Foi autor desse livro um Miguelzinho,
de intimidade anônima (ou nem isso).
E agora ouço dizer, num rebuliço,
que há romance também vindo a caminho.

No caso, me pergunto (ou adivinho)
quem se encarregará de tal serviço
e se a coisa é de fato e compromisso,
ou se é só mais um voo de passarinho.

Mais certo é que já esteja em gestação
um tipo de ave que só se alcandora
em poleiro acadêmico e pimpão.

Venha pois essa nova "labareda
de fogo", em que a paciência se penhora,
e diga o tempo se é menos azeda.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

OFERTA



Fofocas, gargalhadas, romance e diversão de montão: as estrelas da mídia encontram seu presidente
(Título de um artigo de Glenn Greenwald e Thiago Dezan)

Depois de ter vendido na internet,
a preço baixo, a massa cuja inhaca
daria enjoo a uma jaratataca,
chamando-a de "cheirosa" (um sabonete),

tentam vender agora, entre o confete
e a serpentina, o embuste (que ora empaca)
cujo apelo é medíocre e não emplaca,
dado o bodum que nele se repete.

Tentam fazer, joviais e sorridentes,
com uma intimidade de parentes,
passar por pílula um supositório,

oferecendo-o, na televisão,
por um preço imperdível de ocasião,
em programinha reles, de auditório.