segunda-feira, 19 de setembro de 2016

TREZE MODOS DE OLHAR PARA UM CORVO



I

Brasil, Argentina?
Chile, China.
Chile, não. China.
Bracs? Brics!


II

“O México
para os políticos homens
do Brasil
é um perigo.”


III

— Namoradeira.
— Muito bem.
Um copo de vinho lavará da tua cara
o que convém.


IV

Um homem e uma mulher
são uma coisa.
Um homem, uma mulher e uma boa pergunta
são outra coisa.


V

Tomografia:
nem foi juízo.
Não foi sequer uma boa ideia.
Era só uma bolinha de papel.


VI

— Estados Unidos do Brasil. Estados Unidos da América.
— Não.
— Mudou?
— República Federativa do Brasil.
— É parecido.


VII

Cartilha
anti-homofobia
é trololó petista:
pauta furada.


VIII

Repórter
sem vergonha.


IX

O político municipal
discute com o político estadual
quem vai eleger o político federal.
Enquanto isso o senador
tira meleca do nariz


X

Imagina alguém
colocar dois bilhões de reais
para fazer faixa de rolamento de carro
em área verde.
Se essa pessoa pode ser a favor de faixa de ônibus
ou de ciclovia?


XI

Para divulgar as façanhas
desse pássaro
314 milhões de reais 
seria pouco.


XII

Um pássaro
não pode revisar a sua biografia
em pleno voo.


XIII

NSA?
O que é isso?

domingo, 18 de setembro de 2016

DOIS LAUROS


inspirado numa tirinha de André Dahmer

Eram dois Lauros, assim:
um foi morar na sarjeta,
e o outro foi para o jardim.

Um vivia de capim,
e o outro, mais abastado,
se fartava de pudim.

Um dizia: "Talvez sim,
mas faltam provas"; e o outro:
"Culpado, claro! Clarim!"

Um montava no selim
da magrela; porém o outro,
o outro ia de palanquim.

Um jogava pebolim
no boteco, e o outro era tênis
na quadra de um mandarim.

Um era ético, tadim,
e o outro achou no jornalismo
sua escada e trampolim.

Um jurou: "Longe de mim
mentir em letra de forma";
e o outro: "Ah, sim, sim, sim!"

Um, coitado, era pasquim;
e o outro montou na gazeta
seu invencível fortim.

Eram dois Lauros: unzim
foi vender coco na praia;
e o outro acabou no Plim-Plim.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

RIGOR DA LEI OU ESBÓRNIA?



As pessoas sabem o que Lula quis dizer ontem, principalmente quanto à comparação entre políticos e funcionários públicos. Mas fingem que não sabem ou entendem outra coisa (mais ou menos como aquele editorial de ontem da Folha de S. Paulo, que gastou três ou quatro parágrafos gordos para trombetear e vibrar com o espetáculo circense do MPF e, de repente, mudou de tom, dizendo que, na falta de provas, tudo não passou de ilusionismo e retórica).

Deviam também repassar aquela parte em que Lula rebateu o MPF, dizendo que o acusam de recorrer a empresa pública para guardar patrimônio público (o acervo da presidência), muito embora suspeitemos que, se ele tivesse guardado esse acervo (público, ele deixou claro) em local particular, seria acusado do contrário (de apropriar-se indevidamente de patrimônio do estado).

Outra que poderiam repassar é esta, óbvia: que o acusam de ser dono de um imóvel cuja escritura está em nome de uma empresa que não é dele. E também que o acusam de ser dono de um sítio cuja escritura está em nome de outra pessoa. E assim por diante. (É incrível como o cidadão comum incorpora sem dramas de consciência, em seu discurso e comportamento, quando se trata de assimilar o Geist coletivo, as perversidades do chamado direito do inimigo.)

Mas o que escandaliza mesmo é ele dizer que o político, mesmo o mais desonesto, tem de se submeter ao escrutínio popular (com todas as nuances de sentido que isto implica, tal como, por exemplo, a ideia de que, embora sabendo-o desonesto, o povo o reelege por anos a fio ou até vende a ele o seu voto, como temos visto por aí, e vai aos comícios sabendo que as ações daquele crápula que está lá nunca melhoraram nem melhorarão em nada a sua vida), ao contrário do funcionário público, que goza de estabilidade e não tem seu emprego ameaçado a cada mudança de governo (antigamente tinha, e depois, com os avanços da legislação, não teve mais; mas há quem queira retornar ao modelo antigo).

Tudo muito escandaloso. Só não é escandaloso um mancebo criado a pão-de-ló vir a público, com as graças do erário, apresentar uma acusação contra um cidadão e dizer que, apesar do trombeteio, da pirotecnia e dos slides capengas, não tem provas contra ele. (Antes, o nome disso era calúnia e difamação, mas hoje, se você é concursado e funcionário do estado, vira rigor da lei.)

(RS, publicado no Facebook)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

ONANISTA



Se o Moro resolver ignorar a erupção onanística do Dallagnol, o delírio narcísico, aí o Lula se elege sem sair de São Bernado.”
(Paulo Henrique Amorim)

Para fazer com que este movimento
Rolasse mais depressa sobre os trilhos,
Uma ideia me veio ao pensamento,
Recheada com o mel dos estribilhos: 

Ir aos Jardins e, como quem do embate
Desopila  perante os holofotes 
O seu fígado exausto do combate,
Voar mais alto, entre saltos e pinotes.

E me lancei, qual bicho azucrinado,
Na aventura do slide e da entrevista,
Tão ao gosto do povo, acostumado.

Resvalando por grossa correnteza
Alcancei uma espécie de grandeza
Libidinosa, de exibicionista.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

TÁVOLA MEDONHA



— Eu me sinto aqui como Carlos Magno. Quando eu tinha 11 anos de idade, eu ganhei um livro chamado “Carlos Magno e os 12 cavaleiros da Távola Redonda” e eu li aquele livro e era assim: os doze cavaleiros.
(Michel “Fora” Temer)

Tal como um Carlos Magno decadente
que, além de ter fugido ao colegial,
nunca assistiu a um filme e, certamente,
não frequentou o cine vesperal,

troquei, trocando as bolas, a valente
trupe que me seguia, senhorial,
de doze pares pela (mais fulgente)
que circundava Artur, no seu jogral.

Atrasei por três séculos a minha
clepsidra (pois relógio é invenção nova,
que antigamente a gente ainda não tinha).

E assim farei com o resto, até que um dia
tudo esteja tão velho e “pé na cova”
que, se ruísse, ninguém se espantaria.

domingo, 11 de setembro de 2016

PÁSSARO DISPERSO



http://obviousmag.org/archives/2011/09/bibelos_macabros_um_olhar_sobre_a_normalidade.html

O país está golpeado.
O presidente é ilegítimo. 
A perna do presidente é ilegítima. 
O nariz do presidente é ilegítimo.

O presidente não aparece em público,
porque as vaias o perturbam.
A mulher do presidente se veste de branco.
O jornal elogia,
vê significados no branco,
mas o povo não vê.

O presidente vai à tevê
anunciar a maravilha
do mundo revirado.
A tevê o filma
no seu melhor ângulo,
como se filmasse uma paisagem.
Mas o povo não quer essa paisagem,
o povo não a visita.
(E o ângulo da filmagem não o comove.)

O presidente foi à China
e apertou mãos, sorridente;
mas o seu sorriso era amarelo
e a China fica muito longe.
(E o chanceler do presidente é tão amarelo
quanto o seu sorriso.)

A mulher disse no jornal
que as vaias não eram para o presidente.
Falou
como se fosse a mãe do presidente.
Mas o povo não está interessado
nessa maternidade:
o povo viu o ovo
do qual surgiu essa ave.

O presidente vai e vem
em carros blindados.
Sobe em palcos blindados
e faz discursos blindados.
A tevê o filma,
os jornais o vendem
como um peixe,
embrulhado em papel-jornal.
(Sua perna é de presidente,
seu nariz é de presidente.
Mas o povo só vê o peixe
e não se comove.)

O presidente anuncia na tevê
o seu novo plano — a maravilha.
Usa uma linguagem
que os jornais aprovam.
Diz coisas
que os jornais aprovam.
E os seus olhos são os olhos de uma velha ave
de rapina
que surgiu daquele ovo.

Suas asas são ilegítimas.
Seu cabelo é ilegítimo.
Não há maquiagem que possa
transformá-lo num bibelô melhor.

O presidente é um peixe,
um pássaro disperso.
Suas asas são ilegítimas,
seu pio é agudo.

O país está golpeado.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

FALTOU GLÓRIA



Faltou glória a essa miss, faltou coroa, 
faltou no fim da festa a aclamação 
que não lhe concedeu a multidão, 
negando os seus direitos de patroa. 

E a senhorita (a miss), que não perdoa 
nenhuma afronta à sua posição, 
armou barraco — a estrela da ocasião —, 
esbravejando: “Aqui não vim à toa!”

Empurraram-na, pois, mais que a beleza, 
seus cinquenta milhões de remadores,
que nela viram vaga luz acesa. 

Se o trono ambicionado lhe escapou, 
não foi por míngua de honras e estridores,
ou pedigree, que sempre lhe sobrou.

(Fevereiro de 2015)