segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

INDIGESTOS E PURGATIVOS

(sonetos políticos e satíricos)


Versão para acesso gratuito na internet, a partir do site oficial do autor:

http://www.arquivors.com/renato_indigestos.pdf

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

ACRÓSTICO




Baixo demais para alcançar o topo,
Ralo demais para engrossar o caldo,
Aguado em demasia, não me esbaldo:
Subo na lâmina e transbordo o copo.

Instado pelo espinho da vaidade,
Levanto o meu curtíssimo pescoço
E espalho, sobre a borda desse poço,
Incensos de grandeza e de hombridade.

Reles demais para lhes dar substância
Ou sentido (ou tempero, ou só fermento),
Dou-lhes um pouco do meu próprio vento,
Ostentando fumaças de importância.

Assim alcanço ao menos envergar
Nas páginas da imprensa amiga e pasma
Uma aparência magra de fantasma:
Sem que exorcismos venham me expurgar.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

INDIGESTOS E PURGATIVOS



Meu uso do Alvorada é culinário,
conforme se constata: uma cantina
capaz de inundar todo o noticiário
com a sopa que ali ferve, grossa e fina.

E, dada a profusão do receituário
diante do qual a imprensa se alucina,
posso afirmar que tal poção, supina,
faz mais efeito lá do que no armário.

Assim é que, sem medo de acidentes,
da cozinha abrirei a porta imensa,
e a farei um santuário para os crentes. —

Eis a minha arte: cozinhar na banha
todo o langanho que haja na despensa,
para suprir essa avidez tamanha!

(Soneto I)

Coletânea com 54 sonetos satíricos de Renato Suttana. Lançamento em formato eletrônico, à venda no site da Amazon. Para adquirir, clique aqui.

Nota: Você pode ler em seu computador ou no celular, sem recorrer ao Kindle. Para isso, basta instalar o app da Amazon.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

MESOCLÍTICO



Oswaldiando...

Me dá salário
Diz o professor
Me dá escola
Diz o jovem
Me dá comida
Diz o pobre
Da Nação Brasileira
Mas o velho político
Que só entende de romance
Diz a todos
Dar-vos-ei uma banana.

domingo, 20 de novembro de 2016

SOLUÇÃO



Depois de desistir de enfrentar Porchat, Mendonça Filho sai de debate pela porta de trás
(Notícia do JB)

Quando não se é nenhum valente
e só se tem, para a ocasião,
uma mistura de medo e onça
que se atrasa na contramão,
sair pela porta dos fundos
é sempre a melhor solução.

Quando no pasmo se acinzente
nosso trépido coração
diante da realidade esconsa,
que não nos pede opinião,
fugir pela porta dos fundos
é sempre a melhor solução.

Quando nosso ânimo aparente,
sempre a anos-luz da decisão,
como uma obscura gerigonça,
emperra e já não sai do chão,
sair pela porta dos fundos
é sempre a melhor solução.

Quando nosso brio cadente,
que um dia se supôs de leão,
numa órbita confusa e sonsa,
vai girando sem direção,
fugir pela porta dos fundos
é sempre a melhor solução.

Quando nossa coragem mente
e finge a audácia de um leão
(com uma desfaçatez intonsa
que oculta um naco de irrisão),
correr para a porta dos fundos
é sempre a melhor solução.

sábado, 19 de novembro de 2016

QUADRILHA



João delatou Teresa que delatou Raimundo
que delatou Maria que delatou Joaquim que delatou Lili
que também delatou e delatou.
João foi indultado e mora nos Estados Unidos,
Teresa foi indultada e é madre superiora de um convento,
Raimundo foi indultado e morreu num acidente de esqui em Bariloche,
Maria teve cem anos de perdão e viu seus filhos e netos crescerem,
Joaquim voltou ao crime e Lili delatou J. Pinto Fernandes
que, tendo pago propina a todos para ganhar concorrências
em que todos pagavam propina,
mas não tendo a quem delatar,
pegou 120 anos de cadeia.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

BUFOGERIATRIA




Dom Judas foi à Feira
de Frankfurt, velha e fria,
e com seu ar mais sério
(coisa que bem valia
criar um Ministério
da Seriedade — penso)
declarou frente ao povo
que lá esteve, suspenso
pela orelha indiscreta,
com grande novidade
a sua qualidade
de inefável poeta.
Depois foi à tevê
e disse aos jornalistas
(que, sem causa e porquê,
o aplaudiram, farristas)
que anda agora escrevendo
romance desta vez
(que, a julgar pelo jaez
daquela Intimidade,
‘promete’, muito embora
já esteja em andamento
outro romance agora,
que, entre a farsa e a paródia,
é só bufa rapsódia,
que a realidade escreve).
Ao contrário do elance
de entusiasmo que teve
a Eliane Cantanhêde,
não sei se de romance
Dom Judas tanto entende.
(Talvez seja somente
prurido ou faniquito
de velho que não sabe
onde mete — ou pretende
meter futuramente —
o idoso periquito.)
Numa coisa, entretanto,
ele é mestre, bem sei,
senão que especialista:
é em provocar espanto,
fazendo o mundo arder
e ludibriando a lei,
conforme bem quiser;
além, claro, dessa arte
(que merece um Molière)
de criar, para o alumbrado
jornalista da Folha,
de Veja, Globo e Estado 
como um roto estandarte —,
um teatro, frágil bolha,
em que ele é o centro, a estrela,
o rei sol da lapela.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

LITE-RA-RA-RA-TURA



Foi autor desse livro um Miguelzinho,
de intimidade anônima (ou nem isso).
E agora ouço dizer, num rebuliço,
que há romance também vindo a caminho.

No caso, me pergunto (ou adivinho)
quem se encarregará de tal serviço
e se a coisa é de fato e compromisso,
ou se é só mais um voo de passarinho.

Mais certo é que já esteja em gestação
um tipo de ave que só se alcandora
em poleiro acadêmico e pimpão.

Venha pois essa nova "labareda
de fogo", ou só laranja enganadora,
e diga o tempo se é menos azeda.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

OFERTA



Fofocas, gargalhadas, romance e diversão de montão: as estrelas da mídia encontram seu presidente
(Título de um artigo de Glenn Greenwald e Thiago Dezan)

Depois de ter vendido na internet,
a preço baixo, a massa cuja inhaca
daria enjoo a uma jaratataca,
chamando-a de "cheirosa" (um sabonete),

tentam vender agora, entre o confete
e a serpentina, o embuste (que ora empaca)
cujo apelo é medíocre e não emplaca,
dado o bodum que nele se repete.

Tentam fazer, joviais e sorridentes,
com uma intimidade de parentes,
passar por pílula um supositório,

oferecendo-o, na televisão,
por um preço imperdível de ocasião,
em programinha reles, de auditório.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

ADEREÇO




"Com tornozeleira, japonês da Federal volta a escoltar presos da Lava Jato"
(Notícia do G1)

“Faz parte do meu show”
(Cazuza)

Vai de tornozeleira ao compromisso,
que assim a pátria o exige, no momento.
E ademais é de urgência, espanto e vento, 
para quem quer mostrar, prestar serviço.

Vai de tornozeleira — é o novo invento
da jovem Pindorama, ou novo enguiço:
que, para dar à planta altura e viço,
lhe ponhamos também, na raiz, fermento.

Pois o entrudo precisa continuar,
seja onde for, mas seja sem parar —
para o sorriso, o choro, ou para a bile.

Ir de tornozeleira? — É só um enfeite,
um adereço a mais nesse desfile,
do qual talvez nem isto se aproveite.

sábado, 12 de novembro de 2016

A PÁTRIA (REVISTO)



Amavas com orgulho a terra em que nasceste,
mas agora vê bem, criança, onde te meteste!
Se ainda tens céu e mar, vê que o rio e a floresta 
chegaram a um impasse ou triste fim de festa —
e a Vale fez um belo estrago no caminho.
A riqueza do chão? Foge qual passarinho,
pelos gringos levada, astuciosos e lestos, 
que do petróleo só te deixarão uns restos!
E essa grande extensão de matas? Olha bem
se não vão devastá-la e vendê-la também!
Boa terra. Mas hoje a quem sua e trabalha
quer negar teto e pão e oferecer mortalha…
Querem da previdência um negócio fazer
privado, cujo intuito é lucrar e render,
e substituir a lei do trabalho, regrada,
pela lei de quem tenha o mando da rodada;
e a educação, que já não era das melhores,
vão transformá-la num ringue de contendores!
E a polícia, que agora algema o adolescente
e o leva em cana, como um rude delinquente?
(Isto, quando em civil passeata não se mete,
com bala de borracha e muito cassetete.)
E o ministro a dizer que o Estado não tem mais
que dar a todos saúde em condições iguais?
Ah, filho, agora só se fala a novilíngua
“neolibelesa” cuja regra é o pobre à míngua.
Quem, ingênuo, marchou na Avenida Paulista
pediu e recebeu — um governo golpista!
— Ai, criança! para achar outro país como este,
só se morasses lá no poeirento Velho Oeste!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

DESEMBESTADO



Lá foi o promotor, desembestado:
sem provas, sem saber e sem gramática,
mas com uma convicção epigramática,
que há de arder sobre o lombo de um coitado.

Lá foi, como um cabrito azucrinado
que, por efeito de uma obscura estática,
teve visões que não confirma a prática,
mas que o juiz aceitou, como um forçado.

Tais são de Pindorama as novas leis
que da alucinação tiram seu sumo,
capaz de envenenar papas e reis.

E tal, nesta hora grave em que até o diabo
teme exibir os chifres ou o rabo,
a nova regra, que aqui mal resumo.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

DISCORDÂNCIA



(poema quase prosa)

A coisa mais normal do mundo
é discordar da justiça.
(Eu discordo, inclusive, da divina —
por que não?)
E, se não fosse verdade,
não haveria contestação às decisões
dos senhores juízes,
bem como não existiriam
os advogados
para defender
o réu.

Diante da lei, meus senhores,
o primeiro a discordar do juiz
é o réu. (Quem não concorda?)
E por que não?
Vê-se, pois, que discordar
é uma forma lúcida
de existir
e de estar ao lado da
justiça
quando ela não sabe
para onde ir.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

TREZE MODOS DE OLHAR PARA UM CORVO



I

Brasil, Argentina?
Chile, China.
Chile, não. China.
Bracs? Brics!


II

“O México
para os políticos homens
do Brasil
é um perigo.”


III

— Namoradeira.
— Muito bem.
Um copo de vinho lavará da tua cara
o que convém.


IV

Um homem e uma mulher
são uma coisa.
Um homem, uma mulher e uma boa pergunta
são outra coisa.


V

Tomografia:
nem foi juízo.
Não foi sequer uma boa ideia.
Era só uma bolinha de papel.


VI

— Estados Unidos do Brasil. Estados Unidos da América.
— Não.
— Mudou?
— República Federativa do Brasil.
— É parecido.


VII

Cartilha
anti-homofobia
é trololó petista:
pauta furada.


VIII

Repórter
sem vergonha.


IX

O político municipal
discute com o político estadual
quem vai eleger o político federal.
Enquanto isso o senador
tira meleca do nariz


X

Imagina alguém
colocar dois bilhões de reais
para fazer faixa de rolamento de carro
em área verde.
Se essa pessoa pode ser a favor de faixa de ônibus
ou de ciclovia?


XI

Para divulgar as façanhas
desse pássaro
314 milhões de reais 
seria pouco.


XII

Um pássaro
não pode revisar a sua biografia
em pleno voo.


XIII

NSA?
O que é isso?

domingo, 18 de setembro de 2016

DOIS LAUROS


inspirado numa tirinha de André Dahmer

Eram dois Lauros, assim:
um foi morar na sarjeta,
e o outro foi para o jardim.

Um vivia de capim,
e o outro, mais abastado,
se fartava de pudim.

Um dizia: "Talvez sim,
mas faltam provas"; e o outro:
"Culpado, claro! Clarim!"

Um montava no selim
da magrela; porém o outro,
o outro ia de palanquim.

Um jogava pebolim
no boteco, e o outro era tênis
na quadra de um mandarim.

Um era ético, tadim,
e o outro achou no jornalismo
sua escada e trampolim.

Um jurou: "Longe de mim
mentir em letra de forma";
e o outro: "Ah, sim, sim, sim!"

Um, coitado, era pasquim;
e o outro montou na gazeta
seu invencível fortim.

Eram dois Lauros: unzim
foi vender coco na praia;
e o outro acabou no Plim-Plim.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

RIGOR DA LEI OU ESBÓRNIA?



As pessoas sabem o que Lula quis dizer ontem, principalmente quanto à comparação entre políticos e funcionários públicos. Mas fingem que não sabem ou entendem outra coisa (mais ou menos como aquele editorial de ontem da Folha de S. Paulo, que gastou três ou quatro parágrafos gordos para trombetear e vibrar com o espetáculo circense do MPF e, de repente, mudou de tom, dizendo que, na falta de provas, tudo não passou de ilusionismo e retórica).

Deviam também repassar aquela parte em que Lula rebateu o MPF, dizendo que o acusam de recorrer a empresa pública para guardar patrimônio público (o acervo da presidência), muito embora suspeitemos que, se ele tivesse guardado esse acervo (público, ele deixou claro) em local particular, seria acusado do contrário (de apropriar-se indevidamente de patrimônio do estado).

Outra que poderiam repassar é esta, óbvia: que o acusam de ser dono de um imóvel cuja escritura está em nome de uma empresa que não é dele. E também que o acusam de ser dono de um sítio cuja escritura está em nome de outra pessoa. E assim por diante. (É incrível como o cidadão comum incorpora sem dramas de consciência, em seu discurso e comportamento, quando se trata de assimilar o Geist coletivo, as perversidades do chamado direito do inimigo.)

Mas o que escandaliza mesmo é ele dizer que o político, mesmo o mais desonesto, tem de se submeter ao escrutínio popular (com todas as nuances de sentido que isto implica, tal como, por exemplo, a ideia de que, embora sabendo-o desonesto, o povo o reelege por anos a fio ou até vende a ele o seu voto, como temos visto por aí, e vai aos comícios sabendo que as ações daquele crápula que está lá nunca melhoraram nem melhorarão em nada a sua vida), ao contrário do funcionário público, que goza de estabilidade e não tem seu emprego ameaçado a cada mudança de governo (antigamente tinha, e depois, com os avanços da legislação, não teve mais; mas há quem queira retornar ao modelo antigo).

Tudo muito escandaloso. Só não é escandaloso um mancebo criado a pão-de-ló vir a público, com as graças do erário, apresentar uma acusação contra um cidadão e dizer que, apesar do trombeteio, da pirotecnia e dos slides capengas, não tem provas contra ele. (Antes, o nome disso era calúnia e difamação, mas hoje, se você é concursado e funcionário do estado, vira rigor da lei.)

(RS, publicado no Facebook)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

ONANISTA



Se o Moro resolver ignorar a erupção onanística do Dallagnol, o delírio narcísico, aí o Lula se elege sem sair de São Bernado.”
(Paulo Henrique Amorim)

Para fazer com que este movimento
Rolasse mais depressa sobre os trilhos,
Uma ideia me veio ao pensamento,
Recheada com o mel dos estribilhos: 

Ir aos Jardins e, como quem do embate
Desopila  perante os holofotes 
O seu fígado exausto do combate,
Voar mais alto, entre saltos e pinotes.

E me lancei, qual bicho azucrinado,
Na aventura do slide e da entrevista,
Tão ao gosto do povo, acostumado.

Resvalando por grossa correnteza
Alcancei uma espécie de grandeza
Libidinosa, de exibicionista.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

TÁVOLA MEDONHA



— Eu me sinto aqui como Carlos Magno. Quando eu tinha 11 anos de idade, eu ganhei um livro chamado “Carlos Magno e os 12 cavaleiros da Távola Redonda” e eu li aquele livro e era assim: os doze cavaleiros.
(Michel “Fora” Temer)

Tal como um Carlos Magno decadente
que, além de ter fugido ao colegial,
nunca assistiu a um filme e, certamente,
não frequentou o cine vesperal,

troquei, trocando as bolas, a valente
trupe que me seguia, senhorial,
de doze pares pela (mais fulgente)
que circundava Artur, no seu jogral.

Atrasei por três séculos a minha
clepsidra (pois relógio é invenção nova,
que antigamente a gente ainda não tinha).

E assim farei com o resto, até que um dia
tudo esteja tão velho e “pé na cova”
que, se ruísse, ninguém se espantaria.

domingo, 11 de setembro de 2016

PÁSSARO DISPERSO



http://obviousmag.org/archives/2011/09/bibelos_macabros_um_olhar_sobre_a_normalidade.html

O país está golpeado.
O presidente é ilegítimo. 
A perna do presidente é ilegítima. 
O nariz do presidente é ilegítimo.

O presidente não aparece em público,
porque as vaias o perturbam.
A mulher do presidente se veste de branco.
O jornal elogia,
vê significados no branco,
mas o povo não vê.

O presidente vai à tevê
anunciar a maravilha
do mundo revirado.
A tevê o filma
no seu melhor ângulo,
como se filmasse uma paisagem.
Mas o povo não quer essa paisagem,
o povo não a visita.
(E o ângulo da filmagem não o comove.)

O presidente foi à China
e apertou mãos, sorridente;
mas o seu sorriso era amarelo
e a China fica muito longe.
(E o chanceler do presidente é tão amarelo
quanto o seu sorriso.)

A mulher disse no jornal
que as vaias não eram para o presidente.
Falou
como se fosse a mãe do presidente.
Mas o povo não está interessado
nessa maternidade:
o povo viu o ovo
do qual surgiu essa ave.

O presidente vai e vem
em carros blindados.
Sobe em palcos blindados
e faz discursos blindados.
A tevê o filma,
os jornais o vendem
como um peixe,
embrulhado em papel-jornal.
(Sua perna é de presidente,
seu nariz é de presidente.
Mas o povo só vê o peixe
e não se comove.)

O presidente anuncia na tevê
o seu novo plano — a maravilha.
Usa uma linguagem
que os jornais aprovam.
Diz coisas
que os jornais aprovam.
E os seus olhos são os olhos de uma velha ave
de rapina
que surgiu daquele ovo.

Suas asas são ilegítimas.
Seu cabelo é ilegítimo.
Não há maquiagem que possa
transformá-lo num bibelô melhor.

O presidente é um peixe,
um pássaro disperso.
Suas asas são ilegítimas,
seu pio é agudo.

O país está golpeado.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

FALTOU GLÓRIA



Faltou glória a essa miss, faltou coroa, 
faltou no fim da festa a aclamação 
que não lhe concedeu a multidão, 
negando os seus direitos de patroa. 

E a senhorita (a miss), que não perdoa 
nenhuma afronta à sua posição, 
armou barraco — a estrela da ocasião —, 
esbravejando: “Aqui não vim à toa!”

Empurraram-na, pois, mais que a beleza, 
seus cinquenta milhões de remadores,
que nela viram vaga luz acesa. 

Se o trono ambicionado lhe escapou, 
não foi por míngua de honras e estridores,
ou pedigree, que sempre lhe sobrou.

(Fevereiro de 2015)

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

O CANGURU




a um magistrado brasileiro

Levando em seu marsúpio um milionário
que a justiça adotou maternalmente,
vai num ágil esforço, extraordinário,
alcançar o futuro, que pressente.

Obstáculo ou razão que se apresente
ou qualquer empecilho do cenário,
ele os salta, os transpõe rapidamente,
sendo o vento a favor, sendo contrário.

Mais importante é proteger a cria
contra toda incerteza e intervenção
da polícia, que às vezes se desvia.

Por isso vai assim, de pulo em pulo,
acelerando o passo, ardente e fulo,
como quem foge de uma assombração.

Histórico funcional do magistrado em questão, escrito por juristas de renome.

terça-feira, 6 de setembro de 2016

GOLPISTA




Dom Judas, para ser enérgico,
para mostrar que é homem sério,
um dia declarou, colérico,
diante de todo o ministério
(porque também tinha aprendido
na vida a lidar com bandido),
que não toleraria aquilo:
que não suportaria ouvi-lo.

Disse que trataria à altura
toda e qualquer provocação
de gente que, com má tenção,
denegrisse a sua figura
(de homem compenetrado, sério,
que comandava um ministério),
chamando-o de golpista, insulto
que não lhe merecia indulto.

Falou assim, com seu ar sério
e sua verve mais enérgica;
e então instruiu o ministério
a que desse resposta alérgica
(franzindo o cenho decidido
de quem sabe tratar bandido)
e a não deixar passar em branco
qualquer provocação ou tranco.

“Dizei” — disse, quase apoplético —
“a quem vos chame de golpistas
que golpista é quem, por patético,
o pôs no mundo; e vigaristas
(pois, com vileza e má tenção,
desprezam a constituição)
são os que aplicam apelidos:
golpistas rudes, desabridos.”

E assim falou naquele dia,
ensaiando o seu ar mais sério,
alçado afinal à chefia
de um reluzente ministério
(e diante da televisão
que lá fora por convicção);
e o seu aspecto era colérico,
e o seu gesto era de homem ético.

E até não economizou
nenhuma letra, e caprichava
na sintaxe, que embonecou
e que a mesóclise coroava
(cereja desse colorido
bolo — dir-se-á — sem partido),
a exibir o seu ar mais sério
diante de todo o ministério.

E desde então, a cada vez
que alguém o chama de golpista,
retruca, com intrepidez,
bem na cara do vigarista
(dizendo-o ignorante, anormal,
farsante, inconstitucional)
e desfia, conforme ouvi,
esta léria que escrevo aqui:

“Que golpistas são vosso pai,
vosso avô, vosso tio e irmão;
que maior golpista é a que vai
convosco ao altar ou, senão
(replica, decidido e enérgico,
chegando quase ao apoplético) —
o que me parece mais sério
e não contém nenhum mistério:

neste mundo que descaminha,
vossa avó ou vossa mãezinha!”