domingo, 31 de janeiro de 2016

AS VIRGENS ILHAS


Para as mais virgens ilhas nós iremos
quando o Fisco chegar, batendo à porta;
quando, impulsivo, vier numa hora morta
pedir um documento, que perdemos,

de cujo paradeiro nem sabemos
(ou esquecemos, pois já não importa
ou só importa ao vento — letra morta) —
tudo em nome do Imposto, que tememos.

É para as Ilhas Virgens, abençoadas —
mais virgens que as mais virgens das amadas —
que fugiremos, sem mostrar o DARF

e expondo parte alguma, ou quase nada,
da nossa anatomia delicada
ao tridente do Fisco, que nos garfe!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

O PREÇO


Hoje, aparentemente, o juiz brasileiro ganha bem, mas ele tem 27% de desconto de Imposto de Renda, ele tem que pagar plano de saúde, ele tem que comprar terno; não dá para ir toda hora a Miami comprar terno, que cada dia da semana ele tem que usar um terno diferente, ele tem que usar uma camisa razoável, um sapato decente, ele tem que ter um carro.
(José Renato Nalini, juiz brasileiro)

Na falta de um bom terno, se deprime
(quanto mais se não veio de Miami):
cai desolado e, ao condenar um crime,
corre o risco do infarto e do derrame.

Assim, por que o seu ânimo se arrime
e no ato de julgar não dê vexame,
é importante que o público se anime,
pagando o preço – claro –, e não reclame.

Uma justiça bem apresentável,
que exprima a nacional soberania,
certamente não sai por ninharia.

Paguemos, pois, de espírito caroável
e generoso, o custo estipulado,
mesmo que azedo, às vezes, ou salgado.

MASSAS E CHEIROS


Mas um velho assessor que conhece bem o PSDB brincou: 'Um partido de massa, mas uma massa cheirosa!'”
(Eliane Cantanhêde)

Escolher o partido pelo cheiro
é coisa que a razão não recomenda.
Mas há quem nisso aposte e disso entenda,
supondo-se afinado e até padeiro.

Há cheiros bons e há cheiros repelentes,
bem como tipos (muitos e diversos)
de massas que dão pães incontroversos
ou crostas duras, de quebrar os dentes.

Se o olfato do gambá for defeituoso,
pode ser que se agrade do amarume
que de si mesmo expele e o ache “cheiroso”.

É cada qual com o seu, como se diz;
e a cada qual a inhaca ou o perfume
da massa onde meter mãos e nariz.

PANELEIRO SOLITÁRIO


"... da manifestação que só a Folha achou que seria grande."
(Fernando Brito)

Imitando o Menino Maluquinho,
com a panela a cobrir o entendimento,
lá fui acompanhar aquele evento,
ao qual compareci, bravo e sozinho.

Faltou ovo (se viu) naquele ninho
onde não choca o tal do impedimento.
(E “meuzovo” me dói no pensamento,
fazendo da gramática um moinho.)

Só máscara não basta; e a própria Folha,
que lá esteve, a buscar seu novo assunto,
não tem como soprar aquela bolha.

Aonde foram os outros? — me pergunto,
parado aqui, como um futuro artista,
enquanto cedo (ou sofro) uma entrevista.

sábado, 23 de janeiro de 2016

O GOLPE


Mal acabas de beber o teu café pela manhã
e já sabes, com todas as letras,
que a tevê quer o golpe.

Nem precisas de uma grande preparação:
quando te levantas da cama e calças os chinelos,
já o terás ouvido pela milésima vez.

Se tomas o teu banho, se te preparas
para sair — é bom que seja bem depressa,
porque a tevê quer, e não espera.

A tevê não tem paciência, e em outra coisa não pensa,
e de outra coisa não se ocupa
a não ser do seu único desejo: o golpe,

e disso tem pressa. E quando vais ao trabalho,
e quando caminhas pela rua ou atravessas uma avenida,
não tens tempo de pensar, porque

ao teu redor, por todas as partes, a tevê
outra melodia não vibra, outra cantiga não entoa,
outro sino não bate, outro poema não recita, a não ser —

dia e noite — o poema do golpe, a cantiga do golpe.
(Desde o calcanhar até a nádega,
a tevê é uma perna golpista

e cada vez que se move avança um passo.)
Se entras num bar ou se pedes um café,
se tomas o teu refresco ou te sentas no saguão

para esperar o táxi, se olhas
através da janela, outra coisa não vês,
outro ruído não escutas a não ser o ruído do golpe:

com a sua rascante voz que sai de uma garganta
zumbidora, de um estômago zumbidor
e ávido pelo golpe. (Como num conto árabe,

a tevê é um aventureiro que esfregou
uma lâmpada, e seus três pedidos são o golpe.)
E, quando voltas para casa

à tarde, atravessando as avenidas em pânico,
sob o chuvisco dos letreiros,
sempre haverá um momento em que

de novo a voz te provocará, com a sua vibração:
barulhenta e cega, com o seu martelo cego
a bater de todos os quadrantes,

ou como duas asas de morcego
ferindo a noite. E quando entras em casa,
ao anoitecer, e quando vais para a cama,

antes do sono, ainda ouvirás —
por uma última vez, depois do boa-noite
da tua filha, depois do beijo da tua esposa,

depois dos chinelos e do bocejo
(para que não te esqueças e não
te distraias)  — a voz que vem

com o seu arpão e as suas
metralhadoras de vento.
A tevê é ubíqua, esponjosa e amarga

e quer o golpe.

AINDA NÃO


Acendem-se as luzes e o insigne Juiz aparece.
(Paulo Henrique Amorim)

Ainda não moro lá na Ilha de Caras,
mas não deixo de ter a pretensão
de ali passar ao menos um verão,
entre a trupe dos ricos, entre as caras.

Para sanar as mágoas e as aparas,
fui receber também o galardão
junto com a gente da televisão
(por razões que suponho muito claras).

Ainda não moro na Ilha, mas me agradam
a luz do flash e o terno bem cortado,
e certas companhias não me enfadam.

Depois, é só pingar assiduamente
um artigo na imprensa, temperado,
que os aplausos virão — copiosamente.

URUBUS


Não tenho prova cabal contra ele — mas vou condená-lo, porque a literatura jurídica me permite.
(Ministra Rosa Weber)

O abutre sobrevoa o Pré-Sal
(Meme do Facebook)

Porque a literatura me permite,
evoco aquele verso sem consorte
em que, desarvorado, o poeta admite
que um urubu pousou na sua sorte.

Depois que se atingiu certo limite
outra coisa não há que mais importe
que reparar que, quando se demite
o escrúpulo, a verdade vira esporte.

Outrora voavam alto, ameaçadores,
perscrutando os quintais e os arredores,
ou descansando, às vezes, nos telhados.

Hoje, porque ninguém lhes cortou a asa,
mais atrevidos e bem mais ousados,
entram e vêm pousar dentro da Casa.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

OS INTOCÁVEIS


Mas já terá produzido o melaço em que se chafurdam os suínos do PiG e os aventureiros do impítim.”
(Paulo Henrique Amorim)

Intocados pela norma
do Cento e Setenta e Um,
vão vivendo como gostam:
a lei não toca nenhum.

Vão passando acima disto
que a gente teme e venera —
intangidos, impolutos,
como um céu de primavera.

Em abluções que escalavram
a pele grossa dos dias,
vão lavando a alminha suja
com águas frescas e frias;

vão convertendo, intangíveis,
o sujo em claro, e o morboso,
que sob o sim dos imáculos
se torna suave e vistoso;

vão intocando o tocado,
como quem lava e penteia,
para que, sobre o que é limpo,
se ergam castelos de areia;

vão, com artes desenvoltas,
sem preguiça e sem cansaço,
“empessegar” esse açúcar,
purgar mascavo e melaço.

Assim vão, como intangidos
do Um-Sete-Um não alcançados.
E já não sei se intocáveis —
mas por certo que intocados.

SEIS SONETOS DE OCASIÃO


I

Volta o golpismo à moda. E eu, do meu canto,
sobre o teclado, como um mandarim
caseiro, sem sair do meu jardim,
“digito”, “clico”, “envio” – e não me espanto.

Cumpre assinar a lista – doce encanto –
ou postar no Facebook (esse quindim
do qual quero um pedaço para mim)?
Pois lá vou eu, a me indignar, portanto.

Vejo. Escuto o Jabor, que se desdiz.
Ouço o Alckmin dizer, lá de Paris,
que bala de borracha não dá certo.

Não sei. Vou acender uma velinha
para a alma do Lacerda, que Deus tenha,
e outra para a do Civita, o Roberto.


II

Com o nariz de palhaço em posição,
formando em frente ao rosto uma bolota,
saio à rua e não penso na chacota.
Que quero? Que procuro? Sei, e não.

Saio do meu sossego: a situação
é que me faz assim perder a rota.
E se o mundo acabar só em lorota? –
Bem, estarei cumprindo uma função.

É Vênus Platinada. É Can-cansei.
É Marcha da Família, a que o bom Deus
somente acorre se falece a lei.

Nesta promiscuidade de objetivos,
eu mesmo já não sei quais são os meus,
e mal distingo os modos dos motivos.


III

Na passeata do vândalo, o ladrão
também tem vez, e vez tem o espertinho
que lá entrou de gaiato – um passarinho –
para lograr, à sombra, o seu quinhão.

Tem vez o demagogo – tão levinho –
que, ali bradando contra a corrupção,
vai repetindo um lépido bordão
cuja origem apenas adivinho.

Tem vez o mercador da novidade
que, sem medo às carrancas da verdade,
grita aos ventos: Aqui se faz história!

E tem vez o valente, mascarado,
de bigodinho ralo, bem cortado –
sem nome, sem partido e sem memória.


IV

Sem causar furacões nem maremotos,
mas, com a vênia de uma intenção bela,
fazendo do protesto passarela
ou só pretexto para belas fotos,

entre slogans sonantes e remotos,
a que sem convicção a alma se atrela
(mas que a fazem sonhar e acendem nela
um corisco de urgências e alvorotos),

lá vamos nós, formando na avenida,
ao lado dos audazes e atrevidos,
uma corrente longa, indefinida –

a depredar os prédios da justiça
e a queimar as bandeiras dos partidos,
cuja ideia nos obsta e nos atiça.


V

... por isso ele entendeu que aquela era a hora de lutar por TUDO de uma vez só: saúde, educação, salários justos, etc.
(Cauê Madeira)

Foi então que o gigante despertou,
porém sabendo mal que ainda dormia:
e foi, convalescente, à luz do dia,
bradar um vago lema que escutou

e defender a Causa a que o chamou
uma sombra que ao longe aparecia,
fazendo a longa lista (ele entendia)
das guerras que, dormindo, não lutou.

Cumpria, pois, pugnar por tudo e nada
ao mesmo tempo, ao modo de quem tenta
pôr em dia uma agenda abarrotada.

E saiu à rua, incerto, estremunhado,
com a cara pintada ou mascarado –
cheio só das razões que o sono inventa.


VI

Quem deixou o gigante adormecido,
cantando-lhe a longuíssima canção
do auriverde Combate à Corrupção,
de ir Morder a Bandeira do partido,

de eleger presidente o Destemido
Vingador do impalpável Mensalão;
e depois o acordou, na confusão
dos cartazes e lemas, maldormido?

Quem derrubou a PEC num só instante
com a ajuda do brado retumbante
que lá ecoou sem acordes, rimas, pausas? –

Por certo que não foi o mascarado,
iroso, nem o ardente desmiolado,
grande entusiasta de todas as causas.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

LABAREDA


O público, na vala da opinião,
Pedia uma cabeça — e vinha um braço.
Instado pela sombra, sem cansaço,
Naquela lamacenta situação,
Ia às favas do fato: e era o jornal
A lhe dizer que — sim — valia a pena,
Ou que sangrar ali, naquela arena,
Punha no ouvido da emoção geral
Uma forma sutil de melodia —
Boa para o momento. — E uma esquisita
Labareda de Engano ao céu subia,
Invocando justiças que não vêm:
Como uma carta, por ninguém escrita,
Aberta ao escrutínio de ninguém

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

CONSELHO


Melhor limpar privada em Miami do que viver na m... no Brasil
(Cartaz de protesto)

Pois vá, madame, vá limpar privada
aonde quer que a conduza o seu molejo:
Miami, Praga, Tóquio, ou no Alentejo,
que um bom trabalho não desonra nada.

Chato mesmo é ficar encalacrada
nesse canto apertado do desejo,
passando dos limites do gracejo
(até mostrar-se em público pelada!).

No estrangeiro, ganhando o seu tostão
em casa de família, um cidadão
se não enrica, não terá prejuízo.

Assim, sendo o bom senso conselheiro,
tome escova e sabão, e tome juízo,
e vá lavar depressa algum banheiro.

ZOOLOGIA DO FUTURO


É um peixe voraz, briguento, completamente territorial e muito esportivo. Possui dentes afiadíssimos e todo o cuidado é pouco no seu manuseio, pois além de tudo ela é extremamente lisa e escorregadia.
(Wikipédia, sobre a traíra)

Da ordem siluriforme, o bagre, amigo,
não faz cruza com a traíra (erythrinidae,
segundo a enciclopédia) — e não duvide —,
preferindo os escuros como abrigo.

Mas às vezes, por mágica ou no clique
de uma sutil prestidigitação,
se forma o bicho novo, que a razão
não decifra, nem sabe como explique:

tem-se o bagre afinal  voraz, briguento,
territorial e menos que esportivo
(para quem pesca em rio turbulento);

pois com a traíra por dentro, lá no escuro,
onde se guarda — enigma inconclusivo —
para uma zoologia do futuro.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

TEORIA DE DEPENDÊNCIA


Como um fantasma trôpego, oscilante,
o grão Príncipe às vezes aparece,
para emprestar a quem não o merece
um conselho qualquer — de psicomante.

Para escutá-lo, cumpre ao postulante
não ser nem ordinário nem refece,
ter de um atleta o fôlego e o interesse
e, claro, ter paciência de elefante.

Mas, se a alguém o talento não lhe ocorre
e o seu bestunto subdesenvolvido
não alcança as alturas dessa torre,

cabe ser pelo menos desprendido,
e algo viciado nesse estranho esporte,
ou dependente de algum troço forte!

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

CRUZADA


I

Tomado de um espírito valente,
entre godo e cruzado, e decidido
a dar cabo do insólito partido
que tinha eleito mais de um presidente,

resolveu, como quem vê de repente
um brilho damasceno (produzido
por umas coisas que leu a corrido),
sair a campo — ardoroso pretendente —

e atravessar, com ânimo viril,
mil quilômetros (cheios) de Brasil,
de São Paulo a Brasília — bem cortados.

Palmilhou — diz a lenda — todo o trecho
em sola de sapato; e no desfecho
foi recebido pelos deputados.


II

Eram vinte somente — diz o vento —,
com muito mais valor que quantidade,
os que lá estavam para aquele evento,
que só a polícia achou ser de verdade.

Onde foram parar os convocados
da imprensa e dos jornais, que, por ofício,
deram mais atenção a esse estrupício
do que aos cem mil da greve, desprezados?

Se a resposta foi pífia (aproveitando
o termo do Barbosa) e se faltaram
holofote e barulho à brincadeira,

ao menos esta coisa desovaram:
uma selfie (crescida a cabeleira),
com o Marco e o Bolsa (Júnior) se apertando.


III

“Dia agitado” — disse alguém, na imprensa
(por bem pouquinha coisa, se acrescente) —
aquele em que, da expectativa imensa
(se a houve), se tropeçou eventualmente

na decepção, que confundiu a gente,
formada, assim como uma chuva intensa
que findou no Planalto brandamente,
por outonal garoinha, no ar suspensa.

Dizem, no entanto, que por carregar
essa aguinha minguada até Brasília
não bastou só sapato e muito andar:

por exemplo, na Força fez-se alguma
força, e se deram rodas a essa bruma,
um ônibus servindo de vasilha.


IV

O ápice da aventura — aqui se insiste —,
cujo lema era o Fim da Corrupção,
foi posar numa foto, o dedo em riste,
com o Cunha e os outros, em conversação.

Quem do destino escapa? Quem resiste?
Pois foi o caso; e agora vem a ação
da Procuradoria, cujo alpiste
lá foi jogado e aguarda a conclusão.

Mas nós, que de profetas temos nada,
só nos resta esperar que essa cruzada
mereça um dia melhor patrocínio

e que, em vez de gastar com mau defunto
a vela do bom senso, encontre assunto
em coisas de mais juízo e tirocínio.

BOIMATE (II)


(Vingança da revista)

Daqui a pouco, só vai faltar alguns dos jornalões incentivarem uma marcha pela família, tradição e… tomates.
(Gilberto de Souza)

Se o boimate tivesse dado certo,
se a coisa não tivesse desandado
(e o tomate do boi se divorciado),
o país não estaria neste aperto;

pois, prevenindo a usura do mercado
e evitando o tremendo desconcerto
da feira convertida num deserto,
o lombo já viria temperado.

E agora? Como fica a marguerita?
E o matriciana, o sugo, e o à putanesca,
e outras delícias da alma fidalguesca?

— Banana para quem desacredita!
E aglio e olio para quem nos deu combate
e hoje afunda na crise, até o tomate!

domingo, 17 de janeiro de 2016

BURAQUINHO DE BLOGUEIRO


O termo buraquinho me pareceria melhor empregado para descrever a substância cerebral de alguns colunistas…
(Fernando Brito)

Passou coisa demais no buraquinho,
mas quem só viu de longe entendeu mal:
achou que era um rojão — fato normal,
quase uma dejeção de passarinho.

Foi atirado lá por um vizinho,
que, em clima temporão de carnaval,
resolveu esvaziar seu arsenal,
espalhando rumor pelo caminho.

— Claro que não! — protesta a razão, só,
até porque, se existe mundo e fato,
aço não é papel nem pão de ló.

(Ao menos por enquanto.) Mas a quem
lhe falta o miolo, sabe esse “artefato”
que motivo ou buraco lhe convém.

sábado, 16 de janeiro de 2016

TARAS E VÍCIOS


Os taradinhos do impeachment preservam o presidente da Câmara porque esperam dele que instale a ação para a derrubada de Dilma e não têm pudor de dizê-lo.
(Janio de Freitas)

Tão viciados estão nessa substância
(A que dão nome inglês), que já esqueceram,
Rezando por cartilha que tresleram,
As regras do decoro e da observância. —
Dão-se inteiros ao gozo que isso traz
Ou ao gozo de si, conforme a praxe...
Seja. E se falta amante? — Ah, tanto faz!
Dane-se o mundo; e a mão completa o encaixe.
Ou sairão para as ruas, num cortejo,
Gozando, em desbridada bacanal,
O que sozinhos gozam, porém mal,
Libidoacesos. Fazem disso um vício —
Pouco importando escrúpulos de pejo
E o despudor (extremo) do comício.

GLOSA A MOTE


Se o teu jurista é o Merval,
entras bem e acabas mal.

O advogado na penhora 
cortou parte do teu rabo
e simpático anda agora
menos a Deus do que ao Diabo?
E vives já desconfiado
de que a lei não te contempla? —
Pois há nó mais bem atado;
pensa nisto, pois te exempla:
se o teu jurista é o Merval,
entras bem e acabas mal.

O juiz da tua comarca
de penas tais te carrega
que trepida a tua barca,
que o teu burro te arrenega?
E o promotor lá na corte
te despela e te exorciza? —
Que isto, amigo, te conforte,
pois teu coração precisa:
se o teu jurista é o Merval,
entras bem e acabas mal.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

REDUÇÃO

"Sem proposta, sem candidatos, sem unidade interna, sem perspectivas."
(Emir Sader)

Reduzido, por fim, ao seu tamanho
E à sua real medida, esse partido,
Depois de tanto fogo e tanto ruído,
(Um desconto vultoso em seu amanho),
Chega, com o adjutório de uns pavões,
Ao seu ponto mais baixo: manquitola,
O bico roto e, do pescoço à cola,
Depenado por chuvas e monções.
E o amuleto que agora, claramente,
Pendurado por sorte ou por azar
Em seu bico, ele exibe já não mente:
Não finge a sua estirpe, a sua clara
Ascendência e prosápia e, secular, 
Seu estofo — que pena não mascara.

SONETO MOROSO


“... o problema principal é óbvio e reside no processo. Não adianta ter boas leis penais se a sua aplicação é deficiente, morosa e errática...
(Sérgio Moro)

... cavalo
solto, que é louco?
(João Cabral de Melo Neto)

Falha porque é morosa, porque é errante,
porque é errática; e falha, certamente,
não porque busque o justo e o pertinente,
mas porque se extravia a cada instante.

O problema é o processo” — sabe-o a gente —,
não aquele do tcheco, o preocupante,
mas o outro, o mais moroso e deficiente,
que, apesar da ansiedade, é galopante.

Falha porque não cabe no tratado,
no arrastado da letra (insuficiente),
que não basta às urgências de punir.

Falha porque tem pressa e quer fugir,
porque é um cavalo doido, disparado.
Falha porque é morosa, simplesmente.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

BOIMATE (revisitado)


Pendurando dois bichos num só prego
(sendo o tomate aqui considerado
bicho também, conforme um postulado
de ciência diletante a que me apego),

pensei que eu já me achava autorizado
por lógica e bom senso, que não nego,
a montar meu sanduíche — com sossego —
de um jeito mais moderno e despachado.

Mas eis que então descubro, tardiamente,
que era tudo arteirice sustentada
por fonte que só li distraidamente.

Passe a piada, enfim, passe o exagero:
passe, se for o caso, uma boiada.
E voltemos à carne — sem tempero.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

DESNUDEZ


… é a única golpista honesta do Brasil.
(Kiko Nogueira)

Dar prova de uma grande honestidade
E honradez impecável, impoluta,
Só funciona onde a vida não disputa
Numa casca-de-noz sua verdade.
Um desejo tão árduo e persistente
De mostrar competência, quando falha
A vergonha (que nele não trabalha),
Não chega à meta — e a vida é assunto urgente.
Onde falta o decoro, sobra o espanto,
Ganha corpo o espavento em novo show
(Ou em saber que não se sobe a tanto).
Levar a coisa à rua é que a desnuda:
Porém, faltando altura e pluma ao voo,
Espaço há sempre, e sempre quem o acuda.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A TORNEIRA


Madame, essa torneira vaza tanto,
com uma velocidade de gargalo,
que — juro — não será nenhum espanto
se for do tipo que, lá em São Paulo,

vazou do Cantareira para o vento
a água que em sua casa vai faltando —
coisa que me dá trato ao pensamento.
Mas enfim estou só conjeturando.

Mais importante — veja — é constatar
que, embora infrene, essa torneira tem
um modo complicado de vazar,

que, quando importa, jorra desbragada,
num ímpeto fluvial; mas, se convém,
emperra e trava, e às vezes vaza nada.

LAVANDO O TRIBUNAL


(d'après João Cabral de Melo Neto)


1

Uma esponja sozinha não lava um tribunal: 
ela precisará sempre de outras esponjas. 
De uma que esfregue bem essa crosta 
e a passe a outra; de uma outra esponja 
que esfregue a mesma crosta que outra antes 
e a passe a outra; e de outras esponjas 
que com muitas outras se solidarizem 
e esfreguem bem essa velha crosta que,
de incrustada e funda, sob muitos fundos,
vai virando casca, por falta de esfregação.

2

E esfregando bem a crosta, sob as tantas, 
até mostrar o fundo, quase casca, 
de modo a deixar exposta a superfície 
(ex-crosta) do fundo todo armação. 
O fundo, casca grossa que, sob crostas,
só se deixa ver com muita água e sabão.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

SENTADO NA LEI


… pediu vista e sustou a decisão sobre financiamento eleitoral por empresas em abril de 2014. Ainda não foi capaz de ter o voto para continuidade do julgamento.
(Janio de Freitas, coluna de 3-9-2015 na Folha de S. Paulo)

I

Como se fosse a lei uma cadeira,
ponderado, sentou-se em cima dela,
a pretexto de ver (diz a loquela)
se era de fato justa e verdadeira.

Coisa nada vulgar, nem corriqueira,
a uma dúvida entanto nos atrela:
se quem, pesado, assim se refestela —
isto é, com tal demora e tal canseira —

não pensa acaso usar um terceiro olho
(que não os dois da cara) para ver
o que há por trás do enigma, nesse imbróglio;

se de fato não busca uma acuidade
que a normal vista não pode prover,
para tratar questões de probidade.


II

Como se fosse a lei uma almofada,
magnânimo, com jeito de cansado,
nela pôs o traseiro bem-pensado
por longa, interminável temporada.

Por que motivo foi que se sentou
tão longamente nessa coisa, a gente
só conjetura, muito vagamente
(apesar das cinco horas que levou,

em notável sessão, para explicá-la).
Talvez pensasse que, se a lei é dura,
sentar-se nela é um modo de sová-la

e de provar que, enfim, se à razão fria
lhe falta espírito ou musculatura,
sovando bem a massa, ela amacia.


III

Como se fosse a lei um ninho fofo,
sobre ela se sentou, em longo choco,
e assim ficou, de mudo a cego e mouco,
a pretexto de ver se tinha estofo.

Coisa estranha, que a gente entende mal;
mas foi o caso ali, nessa ocasião.
E eis que, finda a comprida incubação,
surgiu, dizendo: “É lei, mas ilegal!”

Teria mesmo achado algum defeito
no ovo que, após um ano de chocá-lo,
não redundou no pretendido galo?

(Ou foi ovo de réptil, mais rasteiro;
e ele embalde, chocando-o por direito,
somente o acalentou, com seu traseiro?)


IV

Como se fosse a lei uma banqueta
dessas que a gente põe frente a um espelho,
sobre ela se sentou, como um esteta,
para dar seu palpite e seu conselho.

E então, como quem sonda a própria cara,
indiferente a espantos e reveses,
examinou-a com paciência rara,
gastando nisso um ano e cinco meses.

Se a diligência com que se aplicou
nesse exame em que tanto demorou
achou seu alvo — cabe duvidar;

mas uma fava ao menos é contada:
que o espelho é para os olhos de enxergar,
e disso o terceiro olho entende nada.


V

Como se fosse a lei uma poltrona,
nela se acomodou, refestelado,
e, feito um cliente que se posiciona
sobre um artigo caro, desejado,

escrutando-lhe o couro (ou, talvez, lona)
e a qualidade externa do lavrado,
e de alto a baixo o todo inspeciona
do acabamento, arguto e desconfiado,

examinou-a por quase ano e meio,
sem descurar da coisa principal:
a macieza intestina do recheio.

(Que em tais assuntos o olho tem palavra,
pois bem entende de fatura e lavra;
mas cabe à nádega a opinião final.)


VI

Como se fosse a lei o seu penico,
sobre ela se sentou, com dignidade,
e examinou-a desde o fundo ao pico,
para ver se era mesmo de verdade.

Talvez julgasse que sob a minuta
da lei houvesse um erro escuro e feio,
só perceptível ao olhar que a escruta,
mesmo gastando nisso um ano e meio.

Há quem faça da lei um juízo vil,
e há quem nela não vê senão trapaça,
e há quem a encare com rigor viril.

Mas há quem dela tanto se enamora
que ao sentar-se sobre ela esquece a hora,
mal se apercebe de que o tempo passa.


VII

Um sentar-se tão longo e demorado,
um espojar-se calmo e fidalgal,
um alongar-se altivo, paroquial,
que faz de tudo um rito consagrado;

um fazer-se esperar tão dilatado,
que num rei não produz efeito igual,
de quem não vai, com pressa capital,
tirar da forca o pai, pobre coitado;

um não ter prazo assim tão bem medido,
que em si somente encontra azo e sentido
e tem no mundo inteiro o seu coreto;

um tal eternizar-se sobre o assento
(que a própria bunda erige em monumento) —
merece pois as honras do soneto.

domingo, 10 de janeiro de 2016

MOROSIDADES


Esse episódio é a prova que faltava de que o processo está sendo conduzido por juiz, policiais e procuradores que querem aparecer e que agem sob viés político.
(Eduardo Guimarães)

Tão ocupado andei com minha imagem
(que foi até na Caras estampada),
que num lapso de equívoca arbitragem
a esposa confundi com a cunhada.

Isso, no entanto, não altera nada
neste preito servil de vassalagem
que presto à opinião pública, formada
por jornais e tevês, em parceiragem.

Da OAB ao CNJ (e outras vertentes
do comunismo) — tudo afronto. E encaro
mesmo o diurno clamor dos descontentes:

como um cuca amoroso, não me abalo;
vou calmamente cozinhando um galo
para a janta (insalubre) que preparo.

sábado, 9 de janeiro de 2016

CRUZADA


I

Tomado de um espírito valente,
entre godo e cruzado, e decidido
a dar cabo do incômodo partido
que tinha eleito mais de um presidente,

resolveu, como quem vê de repente
um brilho damasceno (produzido
por umas coisas que leu a corrido),
sair a campo — ardoroso pretendente —

e atravessar, com ânimo viril,
mil quilômetros (cheios) de Brasil,
de São Paulo a Brasília — bem cortados.

Palmilhou — diz a lenda — todo o trecho
em sola de sapato; e no desfecho
foi recebido pelos deputados.


II

Eram vinte somente — diz o vento —,
com muito mais valor que quantidade,
os que lá estavam para aquele evento,
que só a polícia achou ser de verdade.

Onde foram parar os convocados
da imprensa e dos jornais, que, por ofício,
deram mais atenção a esse estrupício
do que aos cem mil da greve, desprezados?

Se a resposta foi pífia (aproveitando
o termo do Barbosa) e se faltaram
holofote e barulho à brincadeira,

ao menos esta coisa desovaram:
uma selfie (crescida a cabeleira),
com o Marco e o Bolsa (Júnior) se apertando.


III

“Dia agitado” — disse alguém, na imprensa
(por bem pouquinha coisa, se acrescente) —
aquele em que, da expectativa imensa
(se a houve), se despencou eventualmente

na decepção, que confundiu a gente,
formada, assim como uma chuva intensa
que findou no Planalto brandamente,
por outonal garoinha, no ar suspensa.

Dizem, no entanto, que por carregar
essa aguinha minguada até Brasília
não bastou só sapato e muito andar:

por exemplo, na Força fez-se alguma
força, e se deram rodas a essa bruma,
um ônibus servindo de vasilha.


IV

O ápice da aventura — aqui se insiste —,
cujo lema era o Fim da Corrupção,
foi posar numa foto, o dedo em riste,
com o Cunha e os outros, em conversação.

Quem do destino escapa? Quem resiste?
Pois foi o caso; e agora vem a ação
da Procuradoria, cujo alpiste
lá foi jogado e aguarda a conclusão.

Mas nós, que de profetas temos nada,
só nos resta esperar que essa cruzada
mereça um dia melhor patrocínio

e que, em vez de gastar com mau defunto
a vela do bom senso, encontre assunto
em coisas de mais juízo e tirocínio.