quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

FESTA NA REPÚBLICA


É a festa da cocada?
(Pedro Serrano, jurista)

A República Nova não admite
Festas em que se comam outros frutos.
Está no regimento. E a lei permite
Somente aquele — em termos absolutos.
Toca o Joaquim — que a fez independente,
(A ela emprestando incluso o próprio nome) —
Doida valsa, que degringola a mente,
Aumentando a fadiga, o enfado e a fome.
Comer o doce, entanto, só no fim,
Ou depois que o tivermos adoçado
Com o meio amargo açúcar de Caim.
Até lá, que se dance à perna solta,
Dando um passinho, às vezes, para o lado —
À direita e de leve, a cada volta.

19-11-2013

domingo, 14 de fevereiro de 2016

A PESCA (II)


















Em Paraty pescaram lula errada,
não tanto por carência de intenção,
mas por descuido mesmo e afobação,
que fez a turma dar essa mancada.

Explica-se o fracasso da jogada:
é que, pescando em plena escuridão,
sem distinguir sardinha de cação,
a carga veio, enfim, tão aumentada,

que entenderam que a pretendida lula
não coubera na rede – assim modesta,
que para a pesca miúda, apenas, presta.

E agora? Jogar fora os tubarões,
os leões-marinhos e outros valentões,
pescados lá, nesse ímpeto de gula?

sábado, 13 de fevereiro de 2016


A PESCA















Foram pescar Lula e pegaram um Leão Marinho
(Meme do Facebook)

Um leão-marinho é bicho muito grande
para caber em rede tão fajuta.
Então foram pescar, de cara enxuta,
uma lula, que é leve e não se expande

(contanto que não seja a outra, gigante,
capaz de lacerar uma baleia).
E eis no que deu: a rede veio cheia
mas de outro bicho, enorme e impressionante.

E agora? Que fazer? Deitar ao mar
essa carga, acabada de pescar,
ou ir buscar ajuda onde convém?

Tal o risco da pesca imprecavida
que pesca em água turva e não vê bem
qual bicho apanha, a cada arremetida.

NA REPÚBLICA DO JOAQUIM


(prossegue o autor, descrevendo as grandezas da República Nova)

Na República do Joaquim
quem tem olho não chega a rei.
Há que saber tresler o Código
e empurrar a Constituição
e — lépido — ignorar a LEP
e outras chatices que há na lei.

Na República do Joaquim,
proclamada faz só três dias,
há que ter ouvidos de pedra
e fingir que não houve nada
quando o alarme soou lá fora
junto com outras gritarias.

Na República que o Joaquim
proclamou, com a corda toda,
no último 15 de Novembro
(com intenção de fazer melhor
ou quem sabe só remendar
a outra que já saiu de moda)

comunista não terá vez;
mas os togados e os banqueiros,
e os solitários da internet,
e os colunistas do Estadão,
e outras aves de voo baixo,
e os joaquins hão de ter poleiros.

Na República do Joaquim
de óculos é que se enxerga mal.
Portanto há que tirar os óculos,
ou se fingir de analfabeto,
e bufar diante dos embargos,
e até dormir no tribunal.


18-11-2013

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

MILHÕES DE...


... somos milhões de Cunhas...
(Cartaz de protesto)

Milhões (dizia a faixa) os que lá foram,
Intoxicados de ira comburente,
Levar o seu protesto a toda a gente
Honesta — cujos brios não descoram.
Onde, embargado, o espírito se assombra,
Eis que afinal chegaram a uma boa
Soma, um número grande, que atordoa,
De que o protesto (falho) foi só sombra.
(Ou teriam, naquela incontinência,
Com juros engordado o magro assunto,
Usurando-o ao limite da decência?)
Não se diga, entretanto, que o conjunto,
Harmonioso, entre cunhas se atravanca —
Apesar da perrice que o derranca.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

O PÁSSARO


Você deve estar se perguntando: como uma ave tão grande saiu de uma janelinha de primeira instância?
(Leitor do Conversa Afiada)

Um pássaro tão grande e tão vistoso
não cabe certamente em qualquer ninho:
quem o vê tão bicudo e assim ruidoso
até supõe que se incubou sozinho;

mas foi gerado por um buraquinho —
onde, apesar do canto cavernoso,
teve infância comum de passarinho,
antes de ser o passarão plumoso.

Agora garganteia. — De um só furo
sai às vezes, num jato, o todo ovante
do mundo, e sai às vezes o futuro.

(E, havendo empuxo, é certo: essa ave eclode,
vai além dos limites do que pode,
vai de pintinho a galo num instante.)

sábado, 6 de fevereiro de 2016

O BLOCO


O Doutor Moro, quem diria — ele, com aquela cara ascética — virou um carnavalesco.”
(Fernando Brito)

Pôr o bloco na rua — eis a questão,
com o japonês à frente, de impoluto,
e ao seu redor a incrível guarnição
toda equipada e de ar tão resoluto.

Para o triplo desfile — a encenação
que menos que espantosa não reputo:
de dar inveja a um árdego folião
que ao entrudo foi dar seu contributo.

Pôr o bloco, com as cores da justiça
e os paetês da moral, que só compensa
e a imaginação nossa tanto atiça,

neste ano promissor em pantomimas
e outras momices de que são opimas
as avenidas mágicas da imprensa.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

GLOSA


Colunista do Globo calunia Lula durante o dia e se retrata na madrugada
(Diário do Centro do Mundo)

De dia vem a calúnia;
de noite, a retratação.

Para que a gente não pense
que a norma antiga mudou
e que, por erro ou suspense,
o velho em novo virou;
para que a ordem do terreiro
não sofra tribulação
(e o touro, agarrado à unha,
não vá tourear o toureiro),
de dia vem a calúnia;
de noite, a retratação.

Para que um cristão não creia
que à noite se abriu o sol
e que a luz só nos clareia
porque é noturno farol
aceso sobre o profundo
mistério da escuridão
(de que Deus é testemunha,
tão mais velho que este mundo),
de dia vem a calúnia;
de noite, a retratação.

Para que o barco, insuspeito,
chegue a um claro litoral,
e ninguém creia imperfeito
o ordenamento geral
do mundo, que se copia
e não sofre alteração,
desde a treva que acabrunha
ao clarão do meio-dia,
de dia vem a calúnia;
de noite, a retratação.


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

NÃO VIR AO CASO


Embora, para a mídia, isso 'não venha ao caso' e Lula vá continuar sendo acusado de 'ver apartamento', 'ir ao sítio' e 'andar de barquinho de lata'.”
(Fernando Brito)

Crimes graves, segundo o entendimento
da nova lei que há pouco sancionamos,
são ir ao sítio, ou ver apartamento,
coisa que em nossa regra condenamos,

e andar de barco, até com documento
(que minuciosamente examinamos);
são casos de suspeita e impedimento,
e disso, atentos, não nos descuidamos.

Não vem ao caso? — Ora, o que vem ao caso?
Tanta coisa não vem, que até me esqueço,
nem tanto por preguiça ou por descaso...

Cocaína nos ares... “Trensalão”...
Fraudar escolas...  Mas que mau começo!
Ah, vão buscar outra jurisdição!

PREGÃO


92% de aprovação.
(Lorota mineira)

Aprovado até mesmo pelas moscas,
pelos pombos e pelos cachorrinhos,
vou, com palavras vagas e algo toscas,
apregoar meu valor pelos caminhos.

Quem me conhece não me compra, é certo;
mas não perco a esperança de vender-me
lá onde o esquecimento é um campo aberto
e o mérito uma coisa da epiderme.

A quem queira arriscar-se dou o preço,
levando em conta os custos do adereço
com os da pantomima em acrescento:

que acarreto no fim a quem me pague,
somado à encantação que me propague,
um ágio de noventa e dois por cento!

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O CHATO


Chato, chato demais, chato dobrado,
tão chato até o limite da chatice;
chato com chuva, chato que cumprisse
de ser o maior chato algum mandado;

chatinho que chateou o próprio enfado,
com chatices de peta e de intrujice:
chato chocho, do choco à chaleirice,
chato profissional: chato formado;

chato de chumbo e chão, chato choroso,
de um chato que não cobre nenhum véu,
chato xarope, chato de chapéu

(e galochas – o chato demoroso!);
chato todo inteiriço e sem desvio
que chamá-lo de chato era elogio.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

GLOSA A MOTE


Foi feito para isso sim!
(Ouvido numa alta instância da justiça brasileira)

Respondeu-lhe o arcanjo assim:
“Foi feito para isso sim!”

Foi só para dar o exemplo
de coisas que não se aplicam
às vestais daquele templo,
que tal como foram ficam
desde o princípio do mundo,
e por isso em nós suscitam
só um suspiro profundo
quando os ânimos se excitam?
Respondeu-lhe o arcanjo assim:
“Foi feito para isso sim!”

Ou foi mesmo para dar
mais um repelão à roda
que estava quase a parar,
apesar de hoje ser moda
na ideia de certa gente
o difuso pensamento
de derrubar presidente,
que ali gira e é cata-vento?
Respondeu-lhe o arcanjo assim:
“Foi feito para isso sim!”