sexta-feira, 29 de abril de 2016

XEPA


Lojas Moro dão 97,5% de desconto na cadeia
(Fernando Brito)

Com um desconto desses, quem não topa,
quem não quer tomar parte no pacote?
Quando a oportunidade não dá sopa
e o próprio azar ameaça dar calote,

quem não pensa usufruir do descontão,
explorando sem pena a roda-viva
da invejada, premiada delação –
que só desfruta quem tem ginga e esquiva?

Em tempos tão bicudos, quem não pensa,
quem não almeja assim mudar de pena,
na xepa da fortuna, que compensa? –

Pene quem não tem padre nem padrinho,
que a quem sorriu a sorte a vida é amena,
e bem menos penoso o seu caminho.

RAQUÍTICA




I

Judas quer ser figura cívica,
quer despertar a emoção básica
de quem tem raiva da política
ou dela faz ideia cínica.

Com popularidade mínima,
mas sem receio do patético,
convoca lá do fundo cálido
do inferno a força heteronômica,

que, com uma presteza cármica,
formando combativo exército,
ao sol de uma tarde sabática
em seu socorro surge, lépida.


II

Subindo cada qual ao púlpito,
discursam, com ardor vulcânico
e uma desenvoltura histérica,
sem economizar na pólvora.


III

Em nome da “bela” e “doméstica”,
do filho ou da sogrinha asmática,
dos burgos de onde vêm, erráticos,
e da amizade de algum sátrapa,

e de uma imponderável ética,
e das razões as mais enérgicas,
que se exprimem em doida mímica
ou em surtos de fúria cósmica

e explosões de irritante estática
e de energia aguda e súbita
(como se num transe mediúnico,
que entanto é apenas apoplético),

e da velha tradição fálica,
e de um Deus privativo e estático
(que antigamente era mais célere
e tinha um punho mais colérico,

mas que, hoje, nesta tarde báquica,
somente observa, catedrático,
numa indiferença eclesiástica),
dançam um rigodão insólito,

com movimentos acrobáticos
que, se impressionam o neófito,
deixam incomodado o cético,
sentindo um peso em seu estômago

e na cabeça, como um pêndulo
oscilando num obtusângulo,
um pensamento apocalíptico
de ferro a martelar o cérebro.


IV

É que — se parecer seráfico
e se fingir de democrático,
quando não se é mais do que hipócrita,
cobrando um escorchante dízimo

de quem não é crente evangélico
e nada enxerga de turístico
nesse improvável espetáculo,
tem qualquer coisa de morbígeno

ou cômico, não fosse o trágico
de ver afundar no descrédito
a lei, outrora sorumbática,
e de rufiões se tornar súdita —,

ver tudo isso num pacote único
gera uma comichão no espírito,
que pode até parecer cócega,
mas logo desemboca em cólica.


V

Tal foi, naquela quadra exótica,
num reino entre o equador e o trópico,
a situação, conforme, bíblico,
ouvi de um anjo melancólico,

que me narrou, contendo o fôlego
esse episódio nada búdico,
aqui descrito em tom pilhérico
e para o qual não peço crédito.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

ENTRE PIPOCA E CUNHA



Nestes dias dramáticos em que uma jovem democracia enfrenta a iminência de um golpe nascido da vingança de um psicopata metido em múltiplas roubalheiras, o STF deliberou sobre se as pessoas podem entrar com pipoca no cinema.
(Paulo Nogueira)

Não há urgência maior do que a pipoca
ou a aguda questão da meia entrada
para ocupar a mente já ocupada,
que há de dizer: “É tudo o que me toca.”

É colenda, é sublime — a quem se avoca
compromissos que valem a empreitada:
que deixam a alma acesa, carregada
dos mil apelos que a razão convoca.

Não há causa mais nobre a defender
que a do refrigerante no cinema,
da qual — pá-pum! — só temos a aprender.

Políticas? O Cunha e sua gangue?
Seja. Mas que haja “foco” no outro tema,
antes que o ansioso público se zangue.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

CLAMOR

Um congresso de larápios —
reino da cleptocracia —
por amor de Dom Dinheiro
derruba quem poderia
pôr ordem no galinheiro,
nesta quadra tão sombria.
     E o faz ligeiro
     logo em abril
     lá no Brasil!

Sobe ao poder um traidor
de quem se esquiva a polícia
que prende mãe, filho, avó,
mas dele não dá notícia,
engordando-o a pão de ló
com afetuosa blandícia
     e mimo e dó —
     pois é gentil
     lá no Brasil!

O chefe da gatunagem
tem vinte contas na Suíça;
porém frente ao seu passado
faz vista grossa a justiça,
que quer o golpe de estado,
com uma fé mais que omissa,
     já consumado
     logo em abril
     lá no Brasil!

A alta Corte não se move,
como se um ferro tolhesse
seus braços, pernas e mente,
embora a língua se apresse
a protestar duramente
quando a chamam de refece,
     pois não conhece
     vileza e ardil
     a do Brasil!

A tarde em que os deputados
votaram o impedimento
da presidenta inocente
foi um grande casamento
em que cada pretendente
deu o sim do assentimento,
     como um portento
     de amor viril
     pelo Brasil!

(Uns votaram por Jesus,
e outros por filhos, esposa
e sogra, e houve mesmo quem
desse ali, na rebordosa,
voto por Jerusalém —
coisa que merece glosa,
     se ainda convém
     ser senhoril
     lá no Brasil!)

Resta agora aos democratas
e a quem a lei ainda importe
ir às ruas em protesto
ou dar apoio e suporte
a quem não aceita doesto —
pois que hoje, imprevista, a sorte
     manda ser forte
     e não servil
     pelo Brasil!

segunda-feira, 18 de abril de 2016

SONETO MAJESTÁTICO


Batman do pensamento intransitivo,
Resoluto e valente, que o Merval
Imprimiu, para efeito magistral,
Como um herói na capa do seu livro,
Knowing it all, supus, desse portento
(E, if not, não importa: fiquei sendo),
Levo ao extremo o meu afã tremendo,
Levado eu mesmo por tamanho vento.
Se me perguntam onde, em que reduto,
Terminada a missão que ora executo,
Repousará meu sólido traseiro,
Em pífia caverninha ou em cediça
Ermida é que não é, mas no altaneiro
Trono (de ouro e granito) da Justiça!

24-7-2013

domingo, 17 de abril de 2016

FIM DO IDÍLIO


Obrando com empenho, bravamente,
em nome da justiça — a punição —,
fez baixar lá de cima um jorro quente
que fulminou o povo aqui do chão.

Veio depois a doce recompensa,
bem merecida por quem trabalhou
e sabe o quanto o bom obrar compensa,
neste mundo que Deus não renegou.

Era a praia, os Esteites — coisa fina!,
que deixa a alma mais leve a cada vez,
com um jeito faceiro de menina.

Mas — então? Eis que ocorre este revés:
uma lista vazada nos jornais
“melou” os belos sonhos tropicais.


sexta-feira, 15 de abril de 2016

DECORATIVO (II)


Já foi bem mais decorativo,
até o ponto de usar correio
para mandar à presidenta
o seu protesto putativo
(serpente sem cabeça e meio),
dizendo exatamente aquilo
que o tal protesto contestava:
que era mais que decorativo
(e a atitude, apenas, bastava,
entre tantas, a desmenti-lo).

Nem precisou aplicar nisso
toda a força do seu anseio:
que o protesto, levado ao vento,
como um termo de compromisso,
deixou à mostra o seu recheio.
Porém quis mais: gravou mensagem,
como para acrescer o efeito,
que o noticiário, submisso,
vazou num átimo, perfeito.
(Vá saber por que malandragem!)

Por certo ao fim desse arranheiro
só não explicou a que veio,
até porque, já de esquisito,
acabou ficando mais feio
(se é que o efeito era verdadeiro).
E agora mostra a quem aceite
a tarefa de compreendê-lo
que de isento só tinha o cheiro
pois era bem mais um martelo
ou um revólver esse enfeite.