terça-feira, 31 de maio de 2016

CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA - I



Miguelzinho Dois Milhões
se comporta bem à mesa.
Com mesada do papai,
já não sabe o que é pobreza.

Se tem bife, não reclama.
Come papa, toma canja.
E depois, de pança cheia,
bebe suco de laranja.

Vender doces no semáforo,
levar sacos de carvão?
Não são coisas que ele faça
para encher o seu surrão.

Sem acreditar em crise,
seu negócio é diferente:
com um empurrão da sorte,
será um dia presidente.

domingo, 29 de maio de 2016

ENDURECENDO AS PENAS















... troca de juízes, feita para atender a um desejo do ministro Joaquim Barbosa de endurecer as penas...
(Eduardo Guimarães)

As penas desse pássaro, franzinas
(uma penugem rala), ainda não dão
para alcançar a fímbria da amplidão,
atravessando poeiras e neblinas.

Também ao bico, pouco impressionante,
faltam cor e cimento; mas, com os meses
e a sarabanda incrível dos reveses,
há de tornar-se rígido e possante.

Depois virá o voo da ave adulta,
pairando rente sobre a mata inculta
numa efusão tranquila de crocitos. —

Trocar os juízes? Toca a endurecer.
Troque-se a corte inteira — se couber,
que a vida é breve e acaba em dois palitos.

(Escrito em dezembro de 2013)

quinta-feira, 26 de maio de 2016

NÃO SOBRA NINGUÉM


 Pataxó





















Não sobra ninguém, Renan.
(Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro)

Quem tiver entrada
nesse galinheiro
passa muito bem:
samba no pedaço,
dança na rodada,
manda no terreiro.
Mas, se chega o cão
ou se o dono vem,
não sobra ninguém.

Na ausência do gato,
sobe o rato à mesa,
farta-se por cem:
ganha autoridade,
faz espalhafato,
sem temer braveza.
Mas, se nasce o sol,
se é o dia que vem,
não sobra ninguém.

Do Eduardo ao amigo,
do amigo ao Jucá,
é comprido o trem
e gordo o jabá,
se não há perigo
e é cego o fiscal.
Mas, se o fisco à porta
bate do armazém,
não sobra ninguém.

Vigiar a saída,
ter um plano B,
ai, Renan, convém,
nesta conturbada
hora de que até
o diabo duvida.
Pois, se o guarda apita,
se a polícia vem,
não sobra ninguém!

sábado, 21 de maio de 2016

EMPURRÃO




Ordenando, por força, a incomparável
República das coisas do Brasil,
Demos-lhe um safanão bem varonil –
E ela disto fez uso memorável.
Multiplicou-o com ardor dobrado
Em vinte e um anos de aceleração,
Parando só depois que a multidão
Reagiu àquele esforço mal dosado.
O golpe entanto produziu efeito,
Conforme hoje se vê por toda parte
E mais ainda nas coisas do direito.
Se tal lição puder interessar-te,
Segura a rédea, pois, e considera
O espírito moroso que a modera.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

AUTOPSICOGRAFIA GOLPISTA


O golpista é um fingidor.
Finge tão completamente,
que chega a fingir que é amor
a raiva que o povo sente.

E os que ouvem o que ele diz,
jurando de cara dura,
pensam: "Não é um aprendiz.
Conhece bem da fatura."

E assim na tela da Globo
se pavoneia o bufão,
que pensa que o povo é bobo
e engole essa embromação.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

JUSTIÇA EM FARRAPOS




Frequentemente, diante do grande volume de ilegalidades endossadas pela justiça brasileira nos dois últimos anos ― fartamente discutidas e denunciadas por juristas, advogados e jornalistas nos órgãos da imprensa e na internet ―, tenho me perguntado como é possível que uma lei continue a ser respeitada e acatada depois que o seu descumprimento foi referendado pelas autoridades que, em princípio, deveriam se encarregar de aplicá-la, velando por sua respeitabilidade. Por todos os lados que olhemos, as irregularidades afloram: seja no âmbito de operações policiais de apelo midiático, em que agentes da ordem saem a público para participar de disputas políticas (ou se tornam personagens de um imaginário coletivo sempre ávido por novos mitos); seja no âmbito de julgamentos em que o ritmo dos processos e das condenações parece ser determinado por conveniências de circunstância (com atropelamentos de defesa e de prazos que fazem pensar que os agentes têm “pressa” de concluir os processos ou levá-los a determinado ponto, por motivos insondáveis, quando não vão eles mesmos à imprensa antecipar  veredictos, sem que a defesa tenha apresentado ainda suas cartas); seja no âmbito da própria Suprema Corte, que acelera ou retarda processos segundo desígnios imponderáveis (conforme se viu, recentemente, no pedido de cassação do deputado Eduardo Cunha, atrasado de meses em relação à acusação ― de mais de 140 páginas ― feita pelo Procurador Geral da República; ao passo que a prisão do senador Delcídio do Amaral se deu quase instantaneamente, em circunstâncias que ainda causam admiração aos observadores) ― desígnios que surpreendem até aqueles que estão mais acostumados às incertezas e imponderabilidades de nossa justiça e que portanto (como é o meu caso) já não se espantam com elas.
Por um lado, isso mostra que a justiça brasileira ainda se pauta pelo princípio da autoridade a todo custo, herdado de velhas tradições (bem representadas pela chamada cultura do “coronelismo” e do popular “teje preso”), que dizem que a justiça emana não tanto da lei que a comanda, mas da (presumida) autoridade que a aplica. Se o juiz determinou ― é a regra ―, cumpra-se. Por outro lado, se é possível questionar a suspeita dizendo que o fato de uma lei não ser cumprida (e se podem citar, por exemplo, as regras de conduta estabelecidas por códigos clássicos, como os dez mandamentos bíblicos, tomados como modelo de normas que ainda valem para muitas pessoas, embora nem todo mundo esteja disposto a cumpri-las) não cancela a sua vigência e tampouco anula a sua existência, mesmo essa justiça precisa de uma lei qualquer que a mantenha funcionando. No entanto minha pergunta não tem a ver somente com a existência das leis, com a sua vigência. Refere-se antes à possibilidade de que, uma vez desacatadas não só por aqueles que devem se sujeitar a elas, mas também pelos que estão encarregados de velar pela sua aplicação, elas percam de tal maneira a sua autoridade que deixam de existir como leis daí por diante, necessitando de alguém que as ponha de novo em circulação ― isto, se considerarmos que existe um sistema minimamente organizado de códigos e normas. Aqui, como em certos casamentos ― em que as infidelidades geram suspeitas que podem durar a vida inteira (quando não conduzem ao fim do consórcio) ―, uma lei que foi descumprida pela instância encarregada de aplicá-la é uma lei que perdeu a autoridade. Deixa, portanto, de despertar respeito frente àqueles que deveriam se sujeitar a ela, até porque o arbítrio, a falta de ponderação e a dissimetria na aplicação da norma são a melhor maneira de torná-la caduca. E isto precisa ser levado em conta até na cultura do “teje preso”.
Por certo, o fato de que inúmeros crimes sejam cometidos todos os dias, apesar de existir um Código Penal que os arrola como crimes, não anula a existência desse Código. Este, pela sua própria natureza, existe porque existe a possibilidade do confronto e até do desacato, e assim estipula penalidades e tenta dosá-las segundo a gravidade das infrações. Em outro nível, porém ― no nível da aplicabilidade das leis ―, as coisas tomam outro aspecto, assumindo outra dimensão: quem se encarrega de aplicar a lei, velando pelo seu cumprimento, precisa, antes de tudo, reconhecer a sua existência, o que significa que deve respeitá-la e acatá-la também ou, pelo menos, reconhecê-la como lei. Se aqueles a quem coube a guarda das leis (que foram criadas por outrem, diga-se de passagem, conforme é a praxe nas sociedades democráticas) são os primeiros a desrespeitá-las, dando de barato a necessidade do seu cumprimento, pouca esperança restará de que os demais ― os comuns ― também venham a acatá-las, por uma característica do nosso comportamento, desenvolvida desde a infância, que se liga à ideia de não gostarmos de injustiças. Por outras palavras, uma lei que não tem quem a faça cumprir ou quem a reconheça como tal é uma lei manca, inócua, cuja validade se desfaz no fato de não haver quem a conheça ou interprete como lei. Isto, evidentemente, nada tem a ver com moralidade, cujas normas acatamos socialmente, sem que alguém tenha de escrevê-las ou codificá-las em papel ou em tábuas ― o que não é o caso das leis escritas, cuja complexidade e nuanças exigem não apenas treino social, mas também, não raro, capacidades de interpretação que só se adquirem com o estudo e que, portanto, não estão disponíveis para todo mundo.
Para se ter uma ideia, dos anos de 2005 até 2012, assistimos, pela imprensa, no Brasil, ao julgamento da Ação Penal 470, popularmente chamada de “Mensalão”. Tivemos oportunidade de presenciar o assustador volume de eventos estranhos que se passaram em seu âmbito, culminando na condenação, não muito recente, de importantes políticos brasileiros à prisão ― não obstante a ausência de provas incriminatórias, conforme disseram muitos. A opção de condenar sem provas parece ter acontecido aos juízes à revelia dos princípios mais básicos de condução do processo legal, que até um leigo compreenderia. Fundou-se antes na argumentação de que era impossível crer que tal e tal político não tivesse participado dos crimes de que fora acusado ou, como disse uma alta magistrada, porque a literatura permitia (frase que certamente entrará para a história das decisões lamentáveis do direito mundial). Se isto não abria um precedente perigoso na jurisprudência brasileira (e é de jurisprudência que estamos a falar aqui, seja isso o que for), outra não seria a conclusão a tirar do fato de que, uma vez tomada uma decisão (de legalidade) duvidosa ― de consequências nocivas para o ponto de vista jurídico ―, surge em seguida a necessidade de sustentá-la, isto é, de considerá-la como legítima e justificá-la racionalmente. E esta, por sua vez, culminou ― para o nosso espanto ― numa estipulação de penas cujo cálculo, conforme também se disse na época, era totalmente desproporcional à gravidade dos crimes alegados (em comparação com as penas aplicáveis a crimes chamados hediondos, tais como o sequestro e o assassinato). Havia alguma lógica em tudo isso? Certamente havia, embora eu não conheça ninguém que saiba explicar, ainda hoje, com o mínimo de razoabilidade, o que significa e em que casos se aplica a chamada teoria do “domínio do fato” (vá saber o que é!) ― ela mesma alheia ao Código Penal brasileiro, que não a reconhece ou regulamenta como norma.
Poderíamos dizer que houve um grande jogo de cena, certamente ― visando a “defender” a lei ou a salvar a sua reputação num momento sombrio ―, mas não poderíamos sustentar que a vida de pessoas reais ― com a possibilidade de virem a sofrer danos psíquicos e físicos em decorrência de uma condenação injusta ― deva estar sujeita a esse tipo de arbítrio. Um homem não vive segundo uma teoria, é o que se pode dizer, e muito menos deve morrer por causa dela ou em decorrência dela, tal como não se mata a fome com alimento imaginário ou não se vence o frio vestindo roupas de mentirinha. Há uma necessidade de fatos concretos, como se diz, e encenações podem ser boas para o momento, mas não solidificam autoridade e respeito (e não é à toa, pois, que o magistrado que referendou as punições com base no tal “domínio do fato” se aposentou depois de seu cargo na Corte, tal como se não pudesse, a partir de então, sustentar com a sua presença e o seu prestígio a decisão estapafúrdia que havia tomado); e também aprendemos com nossos pais que discursos, somente, desacompanhados de exemplos, não educam nem motivam a juventude. Podemos falar de educação neste ponto? Sim, pois é de educação que se trata, termo que, acredito, está implícito na noção de jurisprudência, definida no dicionário como “ciência do direito e das leis” (Dicionário Aurélio). E ciência, entre muitos aspectos, pode significar a consolidação de saberes e regras de ação que, se foram bons uma vez, é bem provável que o venham a ser novamente, constituindo um esquema de ação que pode orientar o futuro. Já o que foi ruim não pode gerar senão uma jurisprudência negativa, ou seja, não pode manifestar-se senão como exemplo daquilo que não convém imitar ou que, dada a sua inadequação, não se deve fazer por uma segunda vez.
Num contexto, portanto, de turbulência política e jurídica (caso tenha sentido aplicar a ideia de turbulência ao ambiente jurídico, do qual se espera sempre um mínimo de serenidade e ponderação para a tomada de decisões) como o atual, é justo dizer que a primeira a perecer não é a autoridade, mas a legalidade em si ou o ambiente de compreensão e pacto social em que tal legalidade se funda. Depois, como já se viu inúmeras vezes, perece a autoridade, e o caminho para a desordem está aberto. Muito se tem falado, nos dias correntes, da diferença que existe entre o sentido profundo da lei (sua racionalidade e o senso de justiça do qual deve emanar) e o seu aspecto exterior, relacionado à sua aplicabilidade prática e a toda a ritualística que deve acompanhá-la. Tem-se visto a justiça trocar o primeiro sentido pelo segundo, como se o segundo pudesse existir sem o primeiro, e tem-se visto os tribunais se pautando pela observância ao ritual em detrimento do senso profundo da justiça, numa inversão de significados que, cedo ou tarde, não redundará em outra coisa que a perda mesma da autoridade e do sentido de justiça ― que os tribunais deveriam defender como o seu princípio mais alto. Outro exemplo se viu recentemente nos preparativos da sessão do dia 17 de abril da Câmara Federal, que aprovou a admissão do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Em resposta à representação feita por um partido político, a Suprema Corte determinou que o julgamento teria de se pautar estritamente pelo conteúdo da denúncia que dera início ao processo, quando fora aceita pelo presidente da Câmara. O que se viu, porém ― e qualquer um que tenha assistido à sessão pela tevê pôde constatá-lo ―, foi tudo, menos um julgamento pautado pelo conteúdo da denúncia (um observador externo, que não soubesse do que se tratava, não teria a menor ideia de qual foi realmente o motivo por que o mandato da presidenta estava em julgamento). E, não obstante, não faltaram depois manifestações de representantes da Corte dizendo que a coisa estava certa, que os procedimentos foram corretos, porque o ritual fora seguido ― valendo, em resumo, as aparências em detrimento do sentido profundo.
Nos dias atuais, a preocupação com o futuro da lei no Brasil não é efeito de uma paranoia ou uma simples miragem. Diante do que temos presenciado ― de tantos exemplos de “quebra” da legalidade cujas consequências são, em seguida, “remendadas” com arranjos e expedientes que não corrigem a ilegalidade em si, mas apenas os seus efeitos mais imediatos ―, teme-se inclusive pela continuidade da norma constitucional, que, para alguns, já se desfez há tempos e foi substituída pelo arbítrio, pela falsa autoridade (que não emana da lei, mas só do status quo) e pelas conveniências de momento. É possível viver, numa sociedade democrática, composta por milhões de indivíduos, sem uma norma que seja aceita por todos e, sobretudo, sem um código supremo de conduta (uma constituição), do qual emanem os outros e que estipule, também, a maneira como o estado deve se constituir, quem o comandará e quem terá, de fato, em nome desses milhões de cidadãos, autoridade para aplicar a lei? Tais são as perguntas que podemos nos fazer, frente a um processo constante de descumprimento da lei em nome do arbítrio, com tentativas posteriores de amenizar as sequelas e continuar, ao atropelo da razão, acreditando que o sistema ainda funciona. E tais são as preocupações com que devemos nos bater neste momento de crise profunda, cujas consequências são imprevisíveis, mas que ao menos poderiam ser amenizadas se a justiça (a autoridade legitimamente constituída) abraçasse a sua tarefa, mostrasse o caminho a seguir e não apenas se debatesse, algo risivelmente, no esforço teatral de salvar as aparências.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

PLANO DE DESGOVERNO


Cansado de ser só decorativo
(de ser velho, discreto e ainda “do lar”),
num surto de tornar-se produtivo,
Dom Judas tem um plano: trabalhar.

Com intuito severo e punitivo,
convoca, pois, do inferno regular,
seu estafe seleto e decisivo
e o envia ao mundo inteiro, num piscar.

É que, segundo leu numa mensagem
vista à beira da estrada, de passagem,
pensar em crise é tempo esperdiçado:

e a conjuntura atual bem recomenda
que o povo abrace a cruz, diz a legenda,
baixe a cabeça e “pegue no pesado”.

TRAMPA


Não pense em crise.
Não fale em crise.
Só trabalhe.
Arbeit macht frei.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

UNICÓRNIOS





aos golpistas de 2016 e seus entusiastas

I

Acabou-se afinal a corrupção.
Nada mais nos preocupa: agora a vida
é uma partida alegre, agradecida,
que se joga no campo da ilusão.

Bastou dar um passeio na avenida,
vestindo a cor da brava Seleção
(e o sete a um foi só um lapso, distração),
que tudo se ajeitou — numa sortida.

Agora é acreditar que não há mais
problema a resolver, que é um barco o mundo,
descendo por remansos naturais.

Na primavera desta fantasia
(que ela se alongue ao menos por um dia)
a justiça é só o sonho de um segundo.


II

A corrupção findou em toda parte.
No tráfico de drogas não há mais.
Na usura, no punguismo não há mais,
pois que o esbulho acabou em toda parte.

A corrupção mudou-se para Marte,
fugiu para os espaços siderais:
suborno, estelionato não há mais,
que a malícia cessou em toda parte.

A Veja não tem mais notícia a dar,
nem O Globo, ou a Folha, ou o Estadão.
Não têm mais corrupção que noticiar.

A “Lava Jato”, o Moro, o Ministério?
Fechem as portas no seu climatério,
que no Brasil cessou a corrupção.


III

Só o pato da FIESP importa agora,
nadando sobre um lago transparente,
que a corrupção desceu com a corrente,
fugiu para o estrangeiro, onde já mora.

Também o Cunha — de ira vingadora —,
que um dia foi xodó de tanta gente,
hoje é só uma lembrança reticente,
uma goela que já não mais devora.

Ficou tudo bem limpo em Pindorama,
tudo ilibado como se a intenção
de uma freira abrangesse o panorama.

É como se unicórnios, com delícia,
livres de qualquer nódoa e de malícia,
pastassem lá, nos campos da razão.


IV

Mas para que polícia nesta Terra
de Santa Cruz, agora que Dom Judas
assumiu, por razões as mais sisudas,
o controle da máquina, que emperra?

Não há motivos para levar guerra,
nem para tantas e agonais disputas,
pois as consciências serão impolutas
e as intenções um céu que se descerra.

Éramos todos Cunha antigamente,
mas depois que surgiu o outro patrono
viramos todos Judas de repente.

Marta, Cristovam, Fada da Floresta
e quantos mais entraram nessa festa,
vede: não há mais crime neste outono!


V

“The kingly lion stood,
And the virgin view’d…”
(William Blake)

Helicópteros cheios de cocaína,
que mal conseguem se elevar do chão,
agora que acabou a corrupção,
hão de voar livres sobre o ar da campina.

E Furnas? Furnas é só uma menina
que dorme ao lado de um feroz leão —
dele tratada com grande afeição —,
conforme aquele poeta nos ensina.

E os crimes do metrô, que ninguém purga?
E o roubo da merenda, que o estudante
acusa, e o professor lamenta e objurga?

Tudo isso agora é nuga irrelevante,
que do jornal não vale uma seção —
agora que acabou a corrupção.


VI

Agora que Dom Judas assumiu,
depois de tantos anos pendurado
na árvore do remorso e do pecado,
um sol impolutíssimo se abriu.

Foi uma festa o que lá se cumpriu,
de um matiz auriverde e iluminado
que nada tinha a ver com o enforcado,
mas só com a alegria que se viu.

Bastou fazer, nas raias da Paulista,
uma grande e dourada procissão,
que a corrupção se foi, sem deixar pista.

Assalto, peita, saque, espoliação,
tudo isso se acabou naquela quadra,
tal como um velho cão que já não ladra.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

DOM JOAQUIM E A MORAL


aos moralistas de ontem, de hoje e de sempre

Dizem seus arautos que o Supremo Tribunal Federal representa a vanguarda iluminada das sociedades contemporâneas. Ainda com mais fulgor no Brasil, entendem, em vista da podridão de que estariam acometidos os demais poderes da República.
(Wanderley Guilherme dos Santos)

I

Em questões de política e moral
Dom Joaquim é de longe um campeão.
Vai galhardo, protesta, tem razão,
levanta a voz e assombra o tribunal.

Com minúcia joalheira, cartorial,
Dom Ricardo demora a revisão?
Há que apressá-lo para a decisão,
chacoalhar nele o tema principal.

Há que acender lampiões em pleno dia
para a pátria salvar, que se extravia,
perdida entre os entraves do caminho.

Se no braseiro ardente desse ofício
qualquer demora alenta e atiça um vício,
há que pôr asas nesse foguetinho!


III

Quem se atrasa ou tropeça, quem pergunta,
quem se emaranha em miúdos pensamentos,
quem pede provas e argumentos junta,
quem pede ao nada a direção dos ventos;

quem vai tão devagar que nos irrita,
deixando à flor da pele os nervos nossos,
e para obstruir o voo da alma aflita
inventa espinhos, pedras e caroços

desse bravo se torna um adversário —
que vai ceifando à frente, árduo templário,
pronto e a punir fraquezas decidido.

(Até mesmo quem tarda em pensamento
dele há de receber o emolumento
na forma de um acórdão bem comprido.)


II

Dom Joaquim tem todo o direito
de exigir lá no tribunal
que as coisas sigam, mesmo a peito,
conduzidas a ferro e fogo,
em direção a algum final.

Em sua ponderosa fronte —
de onde salta às vezes, fatal,
algum raio que ali desponte —,
não há espaço para firulas:
pois só importa mesmo a Moral.

Dentro dele o céu estrelado
(como dentro de outros também);
mas por cima, como um telhado,
protegendo-o de vento e chuva,
qualquer coisa que não sei bem

e é como um tipo de astrolábio
a devolvê-lo, no final,
à terra firme onde ser Sábio
é empurrar uma grande roda
e nunca transigir com o mal.

Lá ele tem a sua casa?
Sim! E um quartinho bem especial
para o sono, que nunca atrasa,
com o seu travesseiro de penas
e o seu colchão de lã moral.

14-12-2013

segunda-feira, 2 de maio de 2016

LIÇÃO DE HISTÓRIA



No ano de 2014 recebi um telefonema do representante comercial da revista de esquerda Caros Amigos, que me perguntou sobre os motivos pelos quais eu decidira não renovar minha assinatura para aquele período. Tendo sido assinante da publicação nos anos precedentes, eu tinha tomado a decisão de não mais adquiri-la, não tanto porque discordasse de sua linha editorial ou de seu conteúdo informativo, mas porque as posições da revista, quanto ao desenrolar dos acontecimentos políticos dos dois últimos anos, me pareciam equivocadas ou pouco esclarecedoras do que realmente acontecia, para não dizer que eram bastante contrárias àquilo que eu mesmo pensava. Assim foi que eu disse ao representante (de cujo nome não me recordo) que não queria mais assinar a revista e que a principal razão estava no fato de que em março ou abril 2013, quando se iniciaram em São Paulo as manifestações de rua encabeçadas pelo Movimento Passe Livre, a revista — que já fazia críticas oportunas e até legítimas aos governos Lula e Dilma — publicara, como reportagem de capa, um longo artigo em que as manifestações eram interpretadas como uma espécie de levante popular, no qual uma parte da sociedade oprimida se erguia, pela primeira vez em anos, contra um governo de esquerda que, ao longo de mais de uma década, fizera tantas concessões aos interesses do capital financeiro que já não era mais possível, naquela altura, considerá-lo como um governo representativo dos reais interesses da classe trabalhadora e dos setores desfavorecidos da sociedade. Essa linha de interpretação era abraçada também por outros setores da esquerda, que viam nas manifestações iniciadas (e logo abandonadas) pelo MPL (e depois sequestradas por setores reacionários de classe média — conforme se viu ao longo do segundo semestre daquele ano e, particularmente, em março do ano seguinte, com as passeatas verde-amarelas da Avenida Paulista —, que as converteram em manifestações contra o governo trabalhista) a possibilidade de devolver às ruas o poder de decisão e transformação política. Tal poder (era o argumento) se perdera ou adormecera ao longo da última década, porquanto o relativo sucesso das políticas encabeçadas pelo Partido dos Trabalhadores para recolocar a economia brasileira nos trilhos conduzira a um processo de acomodação e silenciamento da esquerda e suas reivindicações de que só agora os progressistas despertavam.
No entanto eu discordava em parte dessa interpretação, porque já no segundo semestre de 2013 ela se mostrara inadequada, tornando-se claro que as manifestações tinham ganhado não apenas um teor reacionário, como também uma tonalidade declaradamente golpista. Foi o que eu disse ao representante da revista Caros Amigos naquele dia, acrescentando que a reportagem apenas levava água ao moinho dos que já se empenhavam (dentro e fora do governo) em solapar a administração da presidenta Dilma Rousseff, a qual nessa altura sofria um forte ataque dos setores direitistas, conforme se verificou e se agravou depois, com a vitória apertada na votação de 2014 e com o subsequente acirramento da investida conservadora. Concomitantemente, logo no início do segundo mandato da presidenta se deu curso às tentativas abertas de derrubada de seu governo, sob mil alegações que não vem ao caso arrolar. Tais tentativas culminaram na atual crise política por que passa o país, simbolizada emblematicamente na aprovação pela Câmara Federal, no dia 17 de abril, da abertura do processo de impeachment da principal mandatária da Nação. Naquela altura, portanto (em 2014), já era possível perceber que o movimento em prol de um golpe de estado de caráter jurídico-midiático ganhara fôlego e fora encampado também por grupos situados dentro da chamada base aliada do governo, dos quais os maiores representantes eram as figuras do atual presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, e — como principal interessado — do vice-presidente da República, Michel Temer (cuja movimentação errática ao longo dos últimos doze meses permitia tudo supor, mas que até aquele momento não havia feito, como o faria depois e, principalmente, como o fez nas últimas semanas, nenhum gesto mais decisivo no sentido de confirmar sua ruptura com o governo e declarar sua intenção de dar um golpe de estado).
Num dos capítulos finais de seu livro A tolice da inteligência brasileira, o sociólogo brasileiro Jessé Souza se espanta com o fato de que as manifestações de rua de 2013, iniciadas como reivindicações legítimas de setores frágeis da cadeia produtiva e motivadas por uma causa definida — um protesto contra o aumento no preço das tarifas de transporte coletivo na cidade de São Paulo —, tenham sido abarcadas pelo baronato da mídia e convertidas, quase imediatamente, em manifestações de cunho reacionário, com vistas a desestabilizar e derrubar o governo trabalhista. Isso — essa mudança de orientação e de sentido —, que se refletiu inclusive em declarações contraditórias de jornalistas conservadores, alinhados com os chefes da imprensa (os quais no início se posicionaram contra as manifestações, uma vez que tinham origem indesejada, mas logo em seguida, como num passe de mágica, passaram a exaltá-las e estimulá-las), dava o que pensar e deverá oferecer assunto aos analistas do futuro, caso se interessem em entender os eventos políticos do Brasil de 2016. No presente, porém, há que reconhecer que a mudança de curso — esse verdadeiro “golpe” da história contra as tentativas de compreensão empreendidas por seus agentes imediatos —, confundindo a esquerda até o ponto da desorientação, tinha um sentido e um lugar muito claros no processo da crise, principalmente naquele de uma conspiração golpista em curso, cabendo opor-se a ela conspiração) e questioná-la em suas bases, conforme alguns jornalistas e blogueiros fizeram quase de imediato, ainda sob a confusa luz de acontecimentos recentes (haja vista os escritos de Fernando Brito, Paulo Henrique Amorim, Paulo Moreira Leite e outros que já naqueles dias denunciavam a aventura golpista*). Opor-se ao golpe e confrontá-lo era situar-se em relação à linha principal de encadeamentos do que acontecia e do que viria a acontecer, confirmada por algumas surpresas e espantos maiores que se sucederam, tais como a controvertida carta de ruptura enviada pelo vice-presidente à presidenta e as cenas da noite de 17 de abril, em que, sob argumentos estapafúrdios (tais como dedicar o voto ao aniversário da cidade, ao neto ainda não nascido, à esposa e à família), 367 congressistas disseram sim ao processo de impedimento da governante, com resultados que se afiguram imprevisíveis e certamente nefastos para a vida política e jurídica do Brasil nos próximos anos.
Tudo isso deveria servir de lição para nós que tentamos interpretar os eventos de grande complexidade da história na sua imediatez, mas, sobretudo, deve servir de alerta para aqueles que os interpretam com base em interesses estratégicos e conjunturais de caráter imediatista. O embate entre forças políticas pode ser imprevisível. Em seu escrito Questão de método, Sartre considera que a imprevisibilidade é um componente essencial da ação humana, com o qual precisamos conviver. Mas não há um modo de ao menos controlar o curso dos acontecimentos, com vistas a evitar desastres maiores? Certamente há, mas é preciso boa vontade e disposição para cumprir acordos e para respeitar os pactos — e não há pacto mais fundamental, nas democracias contemporâneas, do que aquele firmado pelo voto popular. Se, para a esquerda, a opacidade dos eventos produz consequências que se desenrolam numa direção inesperada, para a direita — mormente aquela empenhada numa aventura ilegítima, à margem do pacto — as coisas não serão menos aflitivas. Um governo ilegítimo, empossado ilegitimamente e à revelia do pacto social (o único em condições de prevenir as consequências mais funestas), não é só uma incógnita, mas surge também como anúncio de catástrofes iminentes, cujas sequelas podem ser tão mais difíceis de corrigir do que o próprio desastre que pôs em curso e de que se aproveitou para chegar ao poder. Estamos preparados para uma avalanche?
Isto nós já vimos acontecer em outras circunstâncias da política brasileira e em outros momentos da história nacional e mundial — a um custo, sempre, muito elevado, principalmente para os mais fracos. Pode ocorrer novamente? O momento é de pessimismo, mas sempre existe a esperança. E, contanto que não seja tarde demais, sempre será tempo de mudar de rumo, rever estratégias e tomar as decisões corretas, inspiradas pelo bom senso e não pelas paixões do momento.

Embora não houvesse muita gente, naqueles dias, a denunciar os perigos de uma possível conspiração encabeçada pelo vice-presidente, para a qual me chamou a atenção um texto publicado no site Conversa Afiada, de Amorim.