quarta-feira, 29 de junho de 2016

O QUEIJO


Gilmar Mendes no Google.












Senhora, um dia eu disse: “Essa torneira
vaza tanto que chego a suspeitar
que seja mais um ralo, uma peneira,
dada a copiosidade do vazar.”

Mas às vezes me vem, de outra maneira,
a ideia de que há uma água, regular,
que serve para o bule e a geladeira,
e outra que não convém aproveitar.

Daí, pois, o esperneio dedicado
daquele indefectível magistrado,
que contra essa água nova se levanta:

a qual, fluindo na errada direção,
água o leite da alquímica armação
e estraga o queijo que ali se decanta.

terça-feira, 28 de junho de 2016

SALVACIONISMO


 Duke


Para salvar o Cunha, não se acanhe:
entre em recesso, pegue gripe, adoeça,
caia no mar ou só desapareça,
levado por um vento que o arrebanhe.

Para salvar o Cunha, vale tudo:
tifo, tuberculose, meningite,
asma, gota, escorbuto, apendicite,
tontura, náusea, e até um infarto agudo.

Para salvar o Cunha, não medimos
esforço, nem poupamos sacrifício,
que não sabemos de mais alto ofício.

Vale vender a mãe, se for o caso,
cruzar desertos, escalar os cimos,
domar um tigre, mergulhar no raso.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

A OPERAÇÃO LAVA JATO ENQUANTO PROJETO: COMPENSA O ESFORÇO?




Quem já teve de lidar com uma reforma em sua casa sabe que, em algum momento, os serviços são aceitos como satisfatórios, ainda que inacabados. Mas mesmo um projeto de maior responsabilidade, mais complexo, também tem seus desvios e, em algum momento ou ponto, também será aceito, mesmo que desconforme. Tomemos o projeto de um automóvel, fruto de exaustivas horas de planejamento, desenhos, cálculos, atenção plena das mais variadas disciplinas de engenharia. Não é desejável que haja surpresas ou desvios, até porque, se a gente não espera que haja surpresas, tem que estar sempre preparado para elas. De repente, descobre-se que algo precisa ser revisto e já não há mais como postergar a produção e comercialização. Certamente um grupo de profissionais avaliará os riscos em se permitir que o veículo siga para as ruas. Eis que os modelamentos numéricos apontam que as possibilidades de algo mais grave acontecer só virão após os primeiros 50 mil km, ou dois anos de uso. Assim, o sinal verde se acende, o carro segue para as ruas, e seis meses depois faz-se o recall. O projeto de um avião ou navio, de uma festa de casamento, de uma pesquisa científica, de uma investigação jurídico-policial, de uma viagem de passeio, de uma cirurgia médica, todos possuirão alguma incerteza. Quanto maior seu escopo ou mais desconhecido for o cenário real em que o projeto se insere, mais descobertas e mais frustrações teremos no percurso, e mais ficará por fazer ou certamente receberá soluções do tipo workaround.

É desnecessário ser um gerente de projetos para reconhecer que, ao lidarmos com projetos, sempre teremos de tomar decisões mais ou menos importantes, com informações incompletas, escassas ou mesmo inexistentes. Mas um bom gerenciamento certamente se valerá de um modelo que ajude a compreender melhor a realidade atual e que permita tentar antever o que está por vir. Um engenheiro poderá utilizar um modelamento numérico para compreender como se comporta a estrutura de aço ou concreto de um edifício. Um grupo de projetistas poderá encomendar a construção de um modelo de avião e testá-lo em um túnel de ventos; afinal não dá para descobrir que um avião não consegue decolar somente depois de pronto. Aquele recurso que aprendemos em nossas aulas de química, no antigo Segundo Grau (hoje Ensino Médio), sobre a cor do fogo, também consiste em um modelo que permite aos físicos inferir acerca da temperatura das estrelas, já que sabemos sobre o fogo azul que ele é mais quente e implica uma queima mais eficiente. E esse tipo de leitura consiste em uma avaliação indireta, já que nos é impossível medir efetivamente a temperatura de uma estrela. Outros projetos, como uma pequena festa de aniversário, poderão ter a maioria de suas demandas antevistas e gerenciadas apenas através de modelos mentais. Porém, em minha vivência, infelizmente, percebo a maioria das questões relacionadas a projetos complexos serem administradas apenas por esse tipo de modelo. O grande problema aqui é o fato de esse tipo de análise acabar por intervir na realidade que se deseja compreender. Mas, então, como encontrar e trabalhar com modelos não numéricos para projetos como uma grande investigação jurídico-policial, por exemplo, e recusar as práticas dos modelos puramente mentais?

Já se faz importante organizarmos nossos pensamentos ainda que de forma simplificada, para tentarmos encontrar uma forma de lidarmos com isso. Vamos primeiramente falar sobre a Viabilidade de uma decisão dentro de um projeto. Esta dimensão nos coloca a olharmos para os recursos, para a quantidade e a qualidade necessárias frente àquelas efetivamente disponíveis. Outra dimensão é a Aceitabilidade. Aqui, seremos levados a questionar as vantagens de uma decisão ou o que efetivamente obteremos com tal opção. Quais serão os critérios de desempenho e como medi-los? Temos ainda de avaliar a Vulnerabilidade. Esta terceira dimensão nos coloca defronte aos riscos, a pensarmos sobre o que pode dar errado e o que fazermos caso as coisas não saiam como planejamos. E elas vão dar erradas; é inútil resistir ou acreditar que você conseguirá evitar isso. Se for reconhecido que as coisas em um projeto estão bem, é porque não se olhou direito. Quanto maior seu projeto, quanto mais longo, quanto maior o escopo, quanto mais ele se parecer com um serviço e não com um produto, maiores serão as chances de desvios, e decidir sumariamente não incorrer em erros pode custar mais caro que o próprio erro ou pode substituí-lo por outro exponencialmente maior. Temos de reconhecer que análises simplistas podem levar a decisões simplistas e o processo de tomada de decisão, via de regra, é um gerador de tensão.

Atualmente, temos em curso no Brasil a operação Lava Jato, que é um projeto que podemos classificar como de serviços, escopo amplo, incerto, e inegavelmente complexo. Mas, para falarmos dele, temos de sair do lugar-comum, das leituras rasas que encontramos aos montes pela internet, sejam leituras boas ou más. E é exatamente com um modelamento através das dimensões Viabilidade, Aceitabilidade e Vulnerabilidade – VAV –, que iremos tentar tal exercício. Mas o faremos tal como os físicos estudando as estrelas, de forma indireta, através da cor de luz que delas emana. E faremos assim exatamente pelo fato de termos de pensar sobre ele com as informações incompletas ou mesmo inexistentes que temos a seu respeito.

Diante da Viabilidade, podemos ficar confiantes em reconhecer que os recursos exigidos pela Lava Jato estão disponíveis em quantidade e qualidade suficientes? É fato que há entre os trabalhadores, nela envolvidos, somente mentes privilegiadas e comprometidas com sua missão divulgada? Os insumos físicos necessários estão adequados? Essas questões devem ser pensadas em concordância com propósito anunciado pela operação e não alinhadas ao que compreendemos que deve ou deveria ser tal empreendimento.

Do ponto de vista da Aceitabilidade, somos obrigados a questionar os critérios de desempenho da operação, ou do projeto, ou das decisões que nela se desdobram. Nossas primeiras perguntas podem ser: o que de fato ganhamos com os vários desdobramentos deste projeto? Não valem respostas inflamadas senão para o exercício de brainstorms que posteriormente serão avaliadas em seus pormenores. E seu desempenho? Tem sido satisfatório? Desde 2009 temos, reconhecidamente, suspeitos julgados e punidos de forma justa, rápida, imparcial, aberta? Os valores desviados e recuperados recobrem os custos da operação, incluídos aí contas sociais, como o espessamento da crise politico-econômica instalada no país? O sistema de contratação de obras e serviços pelas entidades públicas se tornou reflexo de confiança? Já temos, entre nós, uma “casta pura” de políticos (ou pretendentes) comprometidos com as questões sociais de nosso país de forma ampla? Sabemos de fato, ou claramente, como é medido o desempenho desta operação? Estamos realmente satisfeitos com seus resultados? Outras perguntas podem e devem ser somadas a estas, pois nosso objetivo aqui não é ir contra tal projeto, mas reconhecê-lo como ele de fato se apresenta.

Mas ainda temos de avaliar a Vulnerabilidade do projeto Lava Jato. A sua dimensão atual lembra um grande dinossauro carnívoro, voraz, temerário. Mas dinossauros eram lentos, pouco flexíveis, e talvez por isso foram extintos. Tantas e tantas gravações vazadas, que nos parecem “atos de confissão” e “desejos de embargos” de alguns por julgar, não são indicadores de ineficiência? Ou é uma intencional tentativa (vã) de buscar um apoio público, um empurrão, que nos parece não vir mais das panelas, apitos e patos? Há a possibilidade de processos se desfazerem em função do tempo que escoa contínuo e incansável? Há arestas e singularidades jurídicas que podem comprometer o necessário juízo, deixando-o imerso em ideias confusas e equivocadas?

Todas essas questões postas em VAV podem eventualmente pedir um desdobramento fractal e serem elas mesmas reanalisadas sobre sua pertinência. Isso nos ajudaria a diminuir cada vez mais nossas incertezas acerca do projeto Lava Jato. Em algum momento certamente perceberemos que, apesar da persistência necessária e imposta em tal projeto, haverá um ponto em que ele já não mais se justificará. Projetos amplos iniciam e caminham em direção à conclusão de 80 – 90 – 95% de seu escopo, mas depois se estagnam para sempre. Como lembrado por um amigo: um feirante que compra no atacado para revender no varejo sabe bem disso. Podemos também atribuir notas (0 a 10), ponderadas ou não, a cada dimensão do VAV e construir uma forma de medi-lo numericamente. Basta atentar que a Vulnerabilidade joga contra o projeto. No caso da Lava Jato, e apenas como exemplo numérico, se entendermos que a Viabilidade merece nota 8, a Aceitabilidade merece nota 9 e a Vulnerabilidade incorre em riscos elevados, merecendo assim uma nota 9, temos a seguinte nota média: [8 + 9 + (10 – 9)] / 3 = 6. Se decidirmos ponderar a Aceitabilidade por 2, a média sobe para 6,75. Passaríamos na matéria, mas um pouco afastados das notas, quase sempre 10 com louvor, que vemos ser atribuídas por aí por parte da mídia e entusiastas.

Eu fui encorajado por um poeta, o mesmo amigo que nos lembrou sobre os feirantes, para trabalhar neste texto (ou projeto) que chega perto de 90% de seu escopo. Assim, me senti obrigado a buscar outro poeta que nos ajudasse na empreitada de reconhecer seu final. Lembrei-me de João Cabral de Melo Neto, em “O cão sem plumas”, quando questiona o modelo utilizado nos mapas para marcar o rio Capibaribe: “[...] Por que então seus olhos vinham pintados de azul nos mapas? [...]” Assim como a realidade daquele rio é outra, é ferrugem, é lodo, também pergunto: por que insistimos em enxergar azul o fogo que queima na Lava Jato, se uma análise afastada de modelos puramente mentais nos mostra um matiz mais frio?

Não quero que compreendam que sou contra ou a favor da operação Lava Jato, ou das decisões que nela ocorrem. Não tratamos disso aqui, pois isso envolveria um parecer jurídico profundo, e não temos recursos em quantidade e qualidade para prosseguirmos nessa direção e, portanto, a Viabilidade ainda me prejudica reconhecer ou firmar uma posição consolidada. Mas reconheço que se faz necessária uma abertura maior em tal projeto, tanto da sua missão, da sua visão, quanto dos resultados efetivos obtidos até aqui. As revelações das promiscuidades que se dão entre empresários e políticos se organizando contra todos nós são desejáveis para nortear nossas ações de mudanças. Mas já vai longe o momento de perder esse enfoque policial e meio novelesco que é dado à operação (a seguir, cenas dos próximos capítulos). Ora, são as nossas vidas que estão em jogo! Por fim, torço para que, na lava Jato, ainda estejamos distantes daqueles 90% do seu escopo, quando então será vislumbrado seu final, pois se estivermos, os 10% que ainda restam será uma pizza muito cara. Prefiro pagar o pato!

(Ederson Ambrósio - publicado com autorização)

CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA — XIII





Os apoiadores apenas serviram pra ajudar a arrombar a porta.
(Míriam Márcia Moraes)

Agora que não tenho mais padrinho,
agora que não tenho mais patrão,
vão me deixar à margem do caminho,
sem me pagar sequer a condução?
Que infortúnio! Oh, dor!
Sou o arrombador.

Agora que o serviço foi prestado
e minha arte não tem mais serventia,
vão me jogar a um canto, pôr de lado,
tal como uma cadeira, uma bacia
sem préstimo ou valor?
Ai, o arrombador!

Agora que ajudei a dar entrada
no cofre, abrindo portas e portões,
depois do panelaço e da cruzada,
de atravessar na chuva as vastidões,
vão, sem mais, dispor
deste arrombador?

Para trás não se deixa, malferido,
um companheiro, um “parça” – disse aquele,
experto e em tais assuntos bem vivido
(que eram a profissão – suponho – dele),
muito menos, senhor,
este arrombador.

Se pensam que, só porque estou calado,
só porque já não bato mais penela,
pagarei pelo pato desinflado
que teve na avenida passarela...
Ouçam meu clamor:
sou o arrombador!

domingo, 5 de junho de 2016

CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA — XII




Pois veio lá de Minas,
com pândega e pilhéria,
o vento que levanta
a saia das meninas
e as anáguas da séria.

Veio das Alterosas
ou talvez das Vertentes,
desfolhando os arbustos,
despetalando rosas,
debulhando sementes.

Qual a sua mensagem?
Qual a sua missão?
Ah, só seguir em frente,
só cruzar a paisagem
em busca da amplidão.

Porém, no seu caminho,
ninguém está seguro:
vai despregando a telha,
vai derrubando o ninho,
vai abatendo o muro.

Eu, que mal o conheço,
que dele não sei nada,
que o observo só de longe,
pensei: “Que mau começo!
Que asa mais desastrada!”

Agora ele quer coisas,
tem coisas a dizer:
diz na televisão
palavras ponderosas
com que nos quer vencer.

Quer isto, quer aquilo,
diz isso por conselho,
faz esta sugestão.
(Dá até preguiça ouvi-lo
e câimbra no joelho.)

Quer que seja virada
a página da história:
quer marchar para a frente
sem se lembrar de nada,
nesta estação inglória.

Como um doido, um audaz,
um veloz corredor,
quer dirigir o carro
sem olhar para trás,
pelo retrovisor.

Ai, faze-me o favor,
que hoje não estou para isso!
Desliga esse aparelho,
apaga esse furor,
põe de molho esse enguiço.

Dá-me imediatamente
o controle remoto,
que essa página é pizza
virada alegremente
em cima do meu voto.

CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA — XI




Eu sei lidar com bandido.
(Uma voz)

Ouvi uma voz na noite
dizendo, em tom decidido,
com um grande murro na mesa:
“Eu sei lidar com bandido!”

Tão espantado fiquei
que logo me vi desperto,
buscando a origem da voz
naquele imenso deserto.

“Como assim sabe? Mas hein?” —
eu no escuro perguntava,
sem entender a mensagem
que aquela voz transportava.

No escuro da noite escura
retumbou em meu ouvido
a voz com seu brado ou blefe:
“Eu sei lidar com bandido!”

sábado, 4 de junho de 2016


CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA — X




Nas alturas do Planalto
fui tocar o meu flautim.
Sua música era suave
e fazia sim-sim-sim.

Com espírito valente
sobre um lago me sentei
numa tarde amena e clara,
e toquei, toquei, toquei.

Em me ouvindo ali tocar,
veio um anjo querubim
e disse: “Toca bonito.
Toca assim ó: sim-sim-sim.

Toca pelo teu amigo,
toca pelo teu irmão,
toca pelo teu padrinho,
toca contra a corrupção!”

E eu, por fazer mais bonito,
num lábaro me enrolei
que era azul, verde e amarelo,
e toquei, toquei, toquei.

Foi à tarde, junto ao lago,
que toquei o meu flautim.
Sua música era suave
e fazia sim-sim-sim.

CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA — IX




Vai para onde vai
o transparente?
Cai agora ou cai
futuramente?
— Vai assumir cargo
no mundo largo.

Foi exonerado
o transparente?
Por razões de estado,
supõe a gente.
— Chuvas o molharam,
ventos o sopraram.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA — VIII




“‘Ela nunca confiou em mim’, desabafou o vice-presidente Michel Temer...
(Ricardo Noblat)

Tigre, tigre, mimimi
na outra perna do saci
quem te escuta, quem te entende
quem te compra, quem te vende.

Quem te leva para casa
quem te adianta, quem te atrasa
quem te faz dançar um tango
sobre o rabo de um calango.

Tigre, tigre, a, bê, cê, dê
e o sorvete colorê
quem te compra numa feira
quarta, quinta, sexta-feira.

Quem te tira da cartola,
quem te leva na sacola
quem te vende no domingo
te põe pinta, ponto e pingo.

Tua verve, teu latim,
verba volant, passarim.
Tigre, tigre, blá-blá-blá
dir-se ia, far-se-á.

CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA — VII




Chovem dólares sobre o Cu-
nha, que os recebe de olhos fechados.
São dádivas, são abençoados
presentes do bom Deus, que o cu-
mula de benesses e agrados.

Quem duvida, quem acha o cú-
mulo do absurdo ou anormal
ver tanto ouro nesse bornal
não terá mais claro docu-
mento que essa chuva cambial.

Chuva de grana sobre o Cu-
nha — eis como o mistério se explica!
São graças com que o céu o enrica,
bênção verde de que se cu-
bra e que — em chuveiro — o dignifica.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA — VI




… quis aparecer como a cereja do bolo, mas revelou-se a mosquinha da bosta...
(Armando Rodrigues Coelho Neto)

Mosquinha, mosquinha!
Tão distraidinha!
Achou que era doce,
achou que era mel
e pousou no errado.
(Quem dera que fosse!)
Nem mel nem melado
nesse carrossel...
Porém lambuzou-se.
Ai, mosquinha, o doce!
(Quem dera que fosse!)

CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA — V


Fotos e fotos


Ouvi dizer que esses leões
estão de olho nos filões.

Ouvi dizer que os seus rugidos,
capazes de abater partidos,

não são para adormecer anjos,
mas para despertar marmanjos.

Ouvi dizer que as suas garras,
que entre santos não fazem farras,

não são para os remediados,
mas para o lombo dos coitados.

Ouvi dizer que as suas presas,
tão propensas às malvadezas,

que os seus horríficos dentões,
suas mandíbulas de leões,

somente um intuito os compele:
que é o de arrancar a tua pele.

CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA — IV




Por Deus, pelo neto,
pela doce esposa,
por toda a família
e até pelos bravos,
duros corretores
de imóveis também —
canta o passarinho,
e canta tão bem!

Canta pelo filho
que ainda não nasceu,
pelo aniversário
do rincão natal,
e até pela paz
de Jerusalém. —
Canta o passarinho,
e canta tão bem!

quarta-feira, 1 de junho de 2016

CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA — III




Como é doce a vidinha do pastor
a contar calmamente o seu tostão,
a açambarcar o dízimo querido
que as ovelhinhas crédulas lhe dão.

Porque ele escuta um galo na distância
cantando ternamente o seu chamado,
muda de profissão e entra na dança:
deixa a campina e vira deputado.

CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA – II




Cordeirinho, quem te impunha
essa coisa de "ser Cunha"?
Por acaso foi promessa
que te fez embarcar nessa?
Cordeirinho, foi feitiço,
foi desejo de estrupício?
Foi vontade de ir à lua
que te fez levar à rua
tua frase, teu cartaz,
teu balido contumaz?

Cordeirinho, vou dizer-te,
pois não posso corrigir-te:
essa coisa de "ser Cunha"
que o teu slogan testemunha;
essa falta de juízo
não te leva ao paraíso;
e a aventura em que embarcaste,
sem socorro e sem guindaste,
te há de – meigo e tão singelo –
foder de verde e amarelo.