domingo, 31 de julho de 2016

LOGOTIPO



No logotipo de Dom Judas
lê-se ordem, lê-se progresso.
Só não se lê fidelidade,
respeito ao trato da verdade.

Uma grande bola, bojuda,
ameaça o nome do Brasil,
como um aríete, um martelo,
quem sabe prestes a abatê-lo.

Se cai o malho sobre o nome,
fará um estrago certamente.
Mas Dom Judas segue tranquilo:
não vê perigo em demoli-lo.

(Essas questões de demolir
Dom Judas trata numa boa:
esquece nome, esquece bola
e vai levar o filho à escola.)

Quem vai suster essa bolota?
Quem vai sustar a sua queda?
Ai, dúvida que nos abala!
Que escaravelho vai rolá-la?

………………………………….

No logotipo de Dom Judas
lê-se ordem, lê-se progresso.
Só não se lê fidelidade,
respeito ao trato da verdade.

sábado, 30 de julho de 2016

O AVESTRUZ




Quem disse que esse pássaro é mesquinho,
de refugar (conforme o povo inventa),
de meter a cabeça em buraquinho 
quando à frente o perigo de apresenta? 

Ah, mas depende de qual seja o caso!
Há que entender a situação em tela,
mensurar bem a lei, compor o prazo —
cozer com calma o galo na panela.

São os dois lados, pois, da conveniência:
audácia e brio, a depender do dia;
e o estado por razão, conforme a urgência.

(E, vindo o golpe, a viola entra no saco:
o por cento é no bolso, a valentia
na sacola — e a cabeça no buraco.)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A TARTARUGA




Antes do golpe, não: que ela não chega.
Noutros casos até vence a corrida:
desliza, voa — é um bólido —, escorrega,
dispara em quinta marcha na descida.

Mas não antes do golpe. O golpe a prega
no chão e a deixa assim amortecida,
com um ar jururu de quem carrega
sobre as costas o fardo de uma vida.

Se é para defender a honra e o bom nome
da casa, vai num pulo, num galope,
vai como doida, como quem tem fome.

Porém não se equivoque o fabulista:
lebre, lesma, Ferrari, ostra ou ciclista —
todos a vencem, se não vem o golpe!

quinta-feira, 28 de julho de 2016

O SAPO




Este sapo ficou por quinze meses
sobre uma flor — disseram-me — sentado,
indiferente às chuvas e aos reveses
da crítica, que o tinham fustigado.

Mestre de tão sutil jurisprudência,
por outro tanto ou mais se sentaria,
com igual suspicácia e igual sapiência,
a esperar pela mosca de algum dia.

Admirá-lo? — É possível, pois sua arte
não é para qualquer, nem seu estilo,
ou a prosápia do seu estandarte.

Já o mais difícil, mesmo, nesta quadra
torta, em que rato ruge e gato ladra,
o mais difícil, caros, é engoli-lo!

quarta-feira, 27 de julho de 2016

LIRA





Dom Judas foi à escola
e a imprensa convocou
para fotografar
a cena que montou.
Ai, Dom Judas,
quem te aguenta!

Levou consigo a esposa
para mais enfeitar
o show que ele sozinho
deu conta de encenar.
Ai, Dom Judas,
quem te aguenta!

Com popularidade
quase chegando ao chão,
Dom Judas precisava
de um maroto empurrão.
Ai, Dom Judas,
quem te aguenta!

Sobre jurisprudência
vago livro escrevera
que uma incerta aurazinha
de sábio lhe rendera.
Ai, Dom Judas,
quem te aguenta!

E outra espécie de autor
fora também, num dia,
que dera em coletânea
de não sei que poesia.
Ai, Dom Judas,
quem te aguenta!

Que embarcara em canoa
ou sem rumo ou furada
nesse livro dizia
com a veia inflamada.
Ai, Dom Judas,
quem te aguenta!

Agora, pelo visto
(consta destes anais),
aposentou a lira
e poeta não é mais.
Ai, Dom Judas,
quem te aguenta!

Sua pena ainda (escuto)
rebola a três por quatro.
Mas a poesia, aquela,
trocou-a pelo teatro.
Ai, Dom Judas,
quem te aguenta!

terça-feira, 19 de julho de 2016

CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA - XIV





Já não é cedo, Diguim,
para que saias do parquim,
para que vás conhecer o mundo,
Diguim!
Então saberás que a vida
é um moim.

Muita atenção, Diguim!
Embora penses que tudo
seja assim:
doce de coco, manjar ou pudim,
em cada abismo encontrarás
um trampolim!
E hás de esfolar o teu traseiro
malandrim,
que ficará assim:
amassadim.

Escuta, Diguim:
foi para isto que vim
(e olha que nem sou o teu padrim),
para te dizer que a vida
é um moim,
que vai triturar o teu sonho tão mesquim
e vai reduzir a tua ilusão
a pozim!

Ouve, Diguim:
a vida é vento,
redemoim!
Vai te derrubar
do palanquim,
vai reduzir teu sonho
a pozim,
vai transportá-lo num helicóptero
mineirim!

ANTES DE TUDO




Antes de tudo: fora, Judas! Fora
o bando que arrastaste sob o manto
da usurpação, que o povo já deplora,
tomado pelo enfado e pelo espanto.

Antes de tudo, fora a tirania
que espezinha a verdade e o pensamento
e impõe seu jugo com malícia fria,
firmada só no próprio atrevimento.

Fora a insolência, fora a usurpação
que abre caminho à força de perfídia,
no expediente do engodo e da traição:

e fora quem, com artes de chacal,
entre as veredas e os grotões da insídia,
contra as urnas levanta o seu punhal.

terça-feira, 5 de julho de 2016

REELEITO




... na convenção que me reelegeu neste domingo presidente da República...
(Aécio Neves)

I

Firmado em duvidosa convenção,
considerou, na insóbria fantasia,
que o fluxo do golpismo se movia
como um morno rescaldo da eleição.

Atribuindo essa estranha anomalia
não ao seu próprio jogo e ao “tapetão”
que era a sua obsessiva pregação,
mas a um revés que só ele entendia,

disse que o golpe era de quem vencera
e não do perdedor — cujo despeito
num dedal de razão jamais coubera.

Foi assim que, num lapso de linguagem,
com grande votação se viu reeleito
presidente da própria verbiagem.


II

'Caso seja do interesse do povo grego, posso substituir Aléxis Tsípras', discursou, em grego antigo.
(Revista Piauí)

Vai sim, por certo, vai ser presidente
da Grécia ou, quando o for, da Venezuela,
caso o Tsipras tropece no expediente,
caso o Maduro caia na esparrela.

Pode também, se a sorte se contente
em cobrir e apagar mais uma estrela,
com folga substituir o Dunga, à frente
da Seleção, que desce na tabela.

Porém é mais provável que, atirado,
ele afinal se torne um novo Ulisses
e se dê de presente aos brasileiros

num cavalo de Troia bem recheado
com um lote de jargões eleitoreiros
e um sortimento atroz de chicanices.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O SONHO DO PROCURADOR




... um compromisso, um sonho...
(Deltan Dallagnol, procurador)

Sonha o procurador, adormecido,
O idílio de dar Fim à Corrupção
Num sortilégio em que, de bem urdido, 
Homem vira papel; santo: bufão.
O sono é fundo — como se o feitiço
De um Morfeu inaudito o anestesiasse
E a ideia do inefável “compromisso”
Ao “soluço” do infante misturasse. —
Recostado em beatífica almofada,
Atravessa uma nuvem cintilante,
Na pretensão de que encontrou a estrada:
Honrando-se no aplauso que procura,
O sonho dele é como um intrigante
Labirinto de espuma e conjetura.