quarta-feira, 31 de agosto de 2016

domingo, 28 de agosto de 2016

LIBERDADE DE EXPRESSÃO



Herdou a liberdade de expressão 
e outras, menos bicudas, do papai; 
e o livre arbítrio, claro, e a opinião
firme, conforme às vezes do céu cai. 

Herdou também — se tenho compreensão —
a tendência à direita, que não trai, 
e o tico de insolência (ou talvez não, 
que em casa é no chinelo que se vai). 

Que mais herdou? Talvez a apologética ,
quase bíblica, e aquelas que — já explico —
costumam vir no bojo da genética.

E assim, livre e soltinho, é que ele vem
(está no sangue!) esbravejar, conspícuo,
por um direito que conhece bem.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

LIÇÃO DE ECONOMIA




É preciso deixar crescer o bolo
e depois dividi-lo. E, enquanto cresce,
vamos comendo a grama que enverdece
e outras coisinhas tenras que há no solo.

É preciso esperar pelo fermento
e que a massa avolume e ganhe viço,
e enfim dê bolo; mas, enquanto isso,
vamos comendo alfafa, palha e vento.

É preciso esperar que o forno aqueça
e que todo o fenômeno aconteça,
e a massa encorpe, calorosa e lisa.

E, enquanto isso, nos vamos aguentando,
a comer o maná que Deus vai dando,
com saladas de grama, palha e brisa.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

AMANTES DE LÍNGUA (II)




"Nesta vida, o que importa é estar por cima,
navegar sempre a crista de cada onda,
furando a cerração que nos esconda,
sempre em busca do sol, que nos anima.

Sobretudo, é preciso ter tarimba:
sim, caros, e ganhar envergadura,
tratando de engolir literatura
com abundância, à farta, e sem catimba.

Começar cedo — eis a lição preciosa,
pois é de jovem que o pepino entorta
e ganha corpo lá no fundo da horta.

Data venia, sou mestre nesta coisa:
conheço-a desde os tempos de estudante;
trato-a como um Don Juan, como um amante!"

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

CANÇÕES DA INOCÊNCIA E DA PRESIDÊNCIA — XV



aos oportunistas que desfecharam o golpe de estado de 2016 no Brasil

Uma egrégia assembleia
de impolutos bandidos
julgou a presidenta
naqueles tempos idos.

Em nome dos parentes,
da matrona do lar,
dos primos e dos tios,
do neto por chegar;

dos amigos da casa,
da cidade natal
(cuja bandeira ergueram,
com um gesto triunfal);

dos pobres e famintos,
e também dos valentes
corretores de imóveis
(que não tinham parentes);

do futuro empenhado
de todas as criancinhas,
e das magras pensões
das magras avozinhas;

ou da mais que difícil
paz de Jerusalém,
e do nobre marido,
e de não sei mais quem;

e do irado combate
à horrenda corrupção
que só os fracos seduz,
porém os puros não;

e em nome da moral
e da ética exemplar,
e do insigne desejo
de o mundo consertar —

expediram, naquela
tarde escura, anormal,
sob o mando de um capo,
a sentença fatal.

E houve lenha, e houve fogo,
e houve pedir a Deus
por luz e tirocínio
e pelo bem dos seus.

Uma egrégia assembleia
de impolutos bandidos
julgou a presidenta
naqueles tempos idos.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

A SERPENTE




Seu ovo se chocou numa bacia
de dólares, ao fundo de uma gruta.
E o filhote — trazido à luz do dia
e cuidado, à maneira de uma fruta

exótica, com zelos admiráveis,
por trezentas babás (que o conduziram,
levando-o ao povo, extremas e amoráveis) —
mordeu furioso aqueles que o nutriram.

Hoje se dissemina de tal modo
sua peçonha pelos quatro cantos,
que envenena — acredito — o mundo todo.

(E antídoto não há para o seu dente,
que vai corroendo a carne internamente
e se reproduzindo em outros tantos.)

O PATO (II)




Desfilava esse pato, empavonado,
há tempos, na avenida; mas, agora
quem seu fôlego inflava foi embora,
deixando-o lá, de murcho a desbotado,

a boiar sobre um lago inflacionado,
qual passageiro que perdeu a hora
e, acreditando que o ônibus demora,
espera ainda no ponto, equivocado.

(Pato que não queria se pagar
e no entanto custou a toda a gente
bem mais do que os prejuízos a evitar.)

Ouve, amigo: esse pato, assim gigante,
é cavalo de Troia de meliante,
deixado à nossa porta, de presente.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

MARCHA A RÉ




A desculpa de que não foi possível notificá-la por não saber seu endereço é uma das coisas mais ridículas da história da Lava Jato e do golpe.
(Paulo Nogueira)

Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa.
(Barão de Itararé)

Ficou chato entender que o caçador,
tão presumido a isento e destemido,
ande assim ressabiado, assim sumido,
com medo de um bichinho sem valor.

Mas era um tigre, um cangambá fedido,
era um portento, um disco voador,
era o leão de Nemeia, rugidor,
ou o javali de Lerna, enfurecido?

Sei que o valente não entrou na loca
e apenas disse, já engatando a ré,
que não tinha o endereço dessa toca.

(E aqui talvez — torcendo o Itararé —
caiba a regra: mais vale um tigre falso
na coleira, que dois em nosso encalço.)

PONTE PARA O FUTURO




A ponte para o fundo do futuro
ficou pronta afinal: quem tem coragem
que faça logo a temerária viagem,
tomando impulso de saltar no escuro.

Ficou pronta, e a estrutura foi armada
com muita chicanice e atrevimento.
(E também há de ser pavimentada
com os ovos de serpente do momento.)

Vai, Cristovão! Vai, Marta! Vai, Aecim!
Ide todos, levando esse cortejo, 
pois já assovia a flauta de Hamelin.

Levai o povo à ponte, que é comprida
e tem por “ponto” uma angular descida
cujo fundo não sondo nem prevejo.

O CAITITU




"...o medo aqui é só aparecer o IBAMA..."
(Interino que comeu o caititu, no Facebook)

Era — acredito — um belo caititu;
mas (conforme disseram no Facebook)
não teve sorte: foi vencido a muque
e terminou na mesa, com o angu.

Era talvez um jovem caititu
que lá passeava, como quem se eduque,
por terras de algum nobre, de algum duque;
mas acabou nas mãos de um brucutu.

Era um bicho do mato, alimentado
pelo verde profuso do cerrado;
mas tombou sob a mira do atrevido.

Era um bicho da terra, peregrino,
que, embora pelo IBAMA protegido,
foi parar no intestino do interino.

domingo, 14 de agosto de 2016

O COELHO




A força-tarefa que diz ter desarticulado o maior esquema de corrupção da história brasileira, instaurado no seio da Petrobras, não consegue intimar a mulher de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) por falta de CEP.
(Rede Brasil Atual)

Por não saber onde se esconde aquele coelho,
Dom Moro, o caçador, vai cozinhando um galo,
vai alargando entre bocejos o intervalo,
senhor da situação, e sem ouvir conselho.

Por certo entende bem o enguiço do aparelho,
mas não tem intenção nenhuma de ajustá-lo,
de fazê-lo outra vez recuperar o embalo,
tirando-o do atoleiro e do fatal vermelho.

Tem lá suas razões — acredito — e respeita
normas, regras e leis de cunho estrito, rijo,
a que os mortais comuns o código sujeita.

Por isso, ali parado, espera, pachorrento,
que a brisa, a chuva, o sol, a enchente, o raio, o vento
obriguem o bichinho a sair do esconderijo.

sábado, 13 de agosto de 2016

AMANTES DE LÍNGUA (I)



— Ontem até diziam que teve uma presidenta inocenta...
(Gilmar Mendes, segundo o jornal Zero Hora)

— Eu fui estudante e eu sou amante da língua portuguesa.
(Cármen Lúcia, segundo o mesmo Zero Hora)

Como o mundo não cabe em sua boca,
tenta comê-lo aos poucos, aos pedaços,
engolindo caroços e bagaços —
já que essa distinção bem pouco o toca.

Vai à forra: a inocência não existe.
(“Ainda ontem...” — ruminava, avantajado,
sem se engasgar consigo, o olho virado
para questão que ao caso não assiste.)

A outra da língua se declara amante,
talvez esposa; e embica em fuleiragem,
ao se lembrar do tempo de estudante. —

Difícil retirar dessa aranhagem
algo que sirva ao frouxo pensamento,
que nele prenda o cisco de um momento.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O PORCO-DA-TERRA




Porco e tatu num bicho só fundidos:
porco pelo direito de fuçar 
mistérios que não sabe deslindar,
e tatu pelos modos encolhidos;

porco pelo costume de roncar
conceitos não sei como produzidos;
mas tatu pela força dos pruridos
que dá o labor diuturno de cavar;

porco porque está sempre a mastigar
o grão indigerível dos partidos,
e tatu quando foge, a se esgueirar

por buracos e túneis escondidos:
porco pela aspereza dos grunhidos,
e tatu porque a terra é seu lugar.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A TATUAGEM





Tenho muita alegria de ser golpista ao lado de ministros como Cármen Lúcia, como Antônio Dias Toffoli, como todos aqueles que declararam que o impeachment é constitucional.
(Senadora Ana Amélia, em plenário)

Com o GOLPE tatuado em sua testa
(cinco letras vistosas a dar canja),
o jeito era deixar crescer a franja
ou se enfurnar no escuro da floresta.

E, depois de tudo isso, ainda veio esta:
como quem acabou de vir da estranja,
a madame (uma lépida marmanja)
em público bradou: “Gostei da festa!

Honra-me ser golpista! É uma alegria!
E além disso é excelente a companhia!…”
Valham-me os santos todos… Falta nada.

(Porém a tatuagem lá persiste,
enfeitando essa fronte delicada,
à espera de algum laser que a despiste.)

O CUCO




Sempre que vem ao caso ele aparece,
pontual e decisivo, confirmando
coisas que os jornais andam aventando,
suspeitas de que o povo não se esquece.

Com um timing incrível, despontando
por cima da onda, que não arrefece,
canta a cantiga do “acho”, “me parece”,
e outros motes que vai colecionando.

Mas, apesar de ser pássaro ativo
(que enquanto derem corda não se cansa),
às vezes falha, por algum motivo:

falta e não vem, talvez por nostalgia
do outro bicho que foi quando criança —
ave que em ninho errado se extravia.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O PATO (I)



Esse pato já esteve mais inflado,
já foi mais combativo, mais valente;
já andou pelo terreiro, renitente,
a grasnar contra o imposto — exorbitado.

Pato gordo e vistoso, mas recheado
(apesar do barulho) de ar somente,
que se deu aos ingênuos de presente,
fazendo-se de altivo e de rogado;

que, de alto a baixo, em todo o galinheiro,
cantou de galo — o pato aventureiro,
topa-tudo e patusco, em pleno agosto;

mas que no fim, conforme a vida empata,
murchou, patife, e desertou do posto:
patranheiro — e grão filho de uma pata!

terça-feira, 9 de agosto de 2016

A GALINHA



Para botar esse ovo foi preciso
muita pena e um esforço coletivo
de presenteá-lo ao mundo ainda indeciso,
trazendo-o à luz no instante decisivo.

Foi necessário ser gorda galinha,
dado o tamanho do ovo e desse pinto
que dele saiu: com jeito de indistinto,
mas galo, enfim, de uma futura rinha.

Foi preciso talvez, compridamente
e com calma, chocá-lo em ninho quente,
forrado com a palha dos milhões:

porque era de outro bicho essa ninhada,
e, com ela, só mesmo uma empreitada
de cobras, ratos, corvos e furões.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

RONDÓ




(à maneira de Silva Alvarenga)

Vê, madame, que Dom Judas,
quando o estudas mais de perto,
é deserto e sem valor:
como flor que não se abriu.

Se o quiseres por adorno,
olha e observa atentamente:
que ninguém, até o presente,
seu contorno descobriu.

Seu matiz de feiticeiro
só de raro transparece:
que no mais é bem refece,
bem fuleiro  já se viu.

Vê, madame, que Dom Judas,
quando o estudas mais de perto,
é deserto e sem valor:
como flor que não se abriu.

Se o levares numa saca
e o puseres sobre a mesa,
hás de ver, sem mais surpresa,
que essa inhaca não serviu.

(Pois Dom Judas não enfeita
nem a própria casa — penso —,
quanto mais o espaço imenso
da árdua empreita que assumiu.)

Vê, madame, que Dom Judas,
quando o estudas mais de perto,
é deserto e sem valor:
como flor que não se abriu.

Com jeitinho assim paterno,
deu um golpe descarado
e hoje manda, desbridado,
no governo, que engrupiu.

(Se com isso ele supunha
se tornar interessante,
tome tento a cada instante,
pois o Cunha já caiu.)

Vê, madame, que Dom Judas,
quando o estudas mais de perto,
é deserto e sem valor:
como flor que não se abriu.

Hoje o ritmo se desbraga
desse samba só bagaço:
que Dom Judas, lá no paço,
é praga que se cumpriu.

(Passou de decorativo
a trambolho — disse o Ciro,
cuja opinião prefiro,
pelo crivo que exibiu.)

Vê, madame, que Dom Judas,
quando o estudas mais de perto,
é deserto e sem valor:
como flor que não se abriu.

Quem o acompanhou, pascácio
(e aqui, sim, decorativo),
em tomar, por mau motivo,
o palácio, que invadiu,

que examine bem o fato,
e um dia talvez compreenda
e que não foi lebre entenda,
mas gato só que engoliu.

Vê, madame, que Dom Judas,
quando o estudas mais de perto,
é deserto e sem valor:
como flor que não se abriu.

Na Olimpíada de agosto —
encolhido em seu cantinho —,
falou pouco e rapidinho,
com o desgosto que o inibiu.

Tão sem sal e sem recheio,
de bonito teve nada
essa fala envergonhada,
pois foi feio o que se viu.

Vê, madame, que Dom Judas,
quando o estudas mais de perto,
é deserto e sem valor:
como flor que não se abriu.

Disse apenas: “Que esse jogo
tenha início!” — e foi sentando;
e até o Galvão, se espantando,
num afogo se entupiu.

Bem conforme a sua laia,
bastou que ele aparecesse
para que o trovão crescesse
da ampla vaia — que estrugiu.

Vê, madame, que Dom Judas,
quando o estudas mais de perto,
é deserto e sem valor:
como flor que não se abriu.

A LAVAÇÃO



D. Gilmar suspeitou do meu dinheiro,
achou que era lavagem, o maroto.
E então pensei comigo: “O capiroto
fez do cérebro dele um aranheiro!”

E nem dei bola. E fui depositar
meu detergente em conta de quem fosse,
sem ter quaisquer satisfações a dar
ao desconfiado e a seu veneno doce.

Mas eis que, descontente, o tagarela
voltou a campo e disse num jornal
que aquilo era uma afronta ao tribunal.

Que sujeira! É por esta mais aquela
que, em reforço da escova e do sabão,
dobrei a monta da contribuição.

(Escrito em 18-2-2014)

Mais aqui

sábado, 6 de agosto de 2016

A TRAÍRA



Não merece esse peixe ser chamado
pelo teu nome. Mas tu sabes bem
que nos dias atuais (de país golpeado)
não cabem privilégios a ninguém.

Numa época em que tudo anda virado,
a honra vira, e a razão vira também, 
de modo que o tal peixe, revirado,
sem muita sobra ou falta, te convém —

até porque (percebo) está na moda
ser traíra, conforme a conveniência, 
ajudando a girar a infame roda.

(Agora, se a trairagem é da idade,
então vale a suspeita: é da impotência,
muito mais que do estilo ou da hombridade.)

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

PENICAÇO





Em plena noite morna apareceu
(quando a outra, que a direita não atrela,
didática e assertiva, esclareceu
que a culpa no final nem era dela).

De cuecas, através de uma janela,
como um confuso atleta que perdeu
a razão, e a bater numa panela
foi dizer a que veio (a imprensa deu).

Engano ou sonho — aquele pandemônio,
que o fez surgir assim, na noite breve,
para pagar esse esquisito 'mico'?

Não sei. Porém é fato que lá esteve,
instigado por íncubo ou demônio,
a confundir panela com penico.

(Escrito em março de 2105)