segunda-feira, 21 de novembro de 2016

MESOCLÍTICO



Oswaldiando...

Me dá salário
Diz o professor
Me dá escola
Diz o jovem
Me dá comida
Diz o pobre
Da Nação Brasileira
Mas o velho político
Que só entende de romance
Diz a todos
Dar-vos-ei uma banana.

domingo, 20 de novembro de 2016

SOLUÇÃO



Depois de desistir de enfrentar Porchat, Mendonça Filho sai de debate pela porta de trás
(Notícia do JB)

Quando não se é nenhum valente
e só se tem, para a ocasião,
uma mistura de medo e onça
que se atrasa na contramão,
sair pela porta dos fundos
é sempre a melhor solução.

Quando no pasmo se acinzente
nosso trépido coração
diante da realidade esconsa,
que não nos pede opinião,
fugir pela porta dos fundos
é sempre a melhor solução.

Quando nosso ânimo aparente,
sempre a anos-luz da decisão,
como uma obscura gerigonça,
emperra e já não sai do chão,
sair pela porta dos fundos
é sempre a melhor solução.

Quando nosso brio cadente,
que um dia se supôs de leão,
numa órbita confusa e sonsa,
vai girando sem direção,
fugir pela porta dos fundos
é sempre a melhor solução.

Quando nossa coragem mente
e finge a audácia de um leão
(com uma desfaçatez intonsa
que oculta um naco de irrisão),
correr para a porta dos fundos
é sempre a melhor solução.

sábado, 19 de novembro de 2016

QUADRILHA



João delatou Teresa que delatou Raimundo
que delatou Maria que delatou Joaquim que delatou Lili
que também delatou e delatou.
João foi indultado e mora nos Estados Unidos,
Teresa foi indultada e é madre superiora de um convento,
Raimundo foi indultado e morreu num acidente de esqui em Bariloche,
Maria teve cem anos de perdão e viu seus filhos e netos crescerem,
Joaquim voltou ao crime e Lili delatou J. Pinto Fernandes
que, tendo pago propina a todos para ganhar concorrências
em que todos pagavam propina,
mas não tendo a quem delatar,
pegou 120 anos de cadeia.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

BUFOGERIATRIA




Dom Judas foi à Feira
de Frankfurt, velha e fria,
e com seu ar mais sério
(coisa que bem valia
criar um Ministério
da Seriedade — penso)
declarou frente ao povo
que lá esteve, suspenso
pela orelha indiscreta,
com grande novidade
a sua qualidade
de inefável poeta.
Depois foi à tevê
e disse aos jornalistas
(que, sem causa e porquê,
o aplaudiram, farristas)
que anda agora escrevendo
romance desta vez
(que, a julgar pelo jaez
daquela Intimidade,
‘promete’, muito embora
já esteja em andamento
outro romance agora,
que, entre a farsa e a paródia,
é só bufa rapsódia,
que a realidade escreve).
Ao contrário do elance
de entusiasmo que teve
a Eliane Cantanhêde,
não sei se de romance
Dom Judas tanto entende.
(Talvez seja somente
prurido ou faniquito
de velho que não sabe
onde mete — ou pretende
meter futuramente —
o idoso periquito.)
Numa coisa, entretanto,
ele é mestre, bem sei,
senão que especialista:
é em provocar espanto,
fazendo o mundo arder
e ludibriando a lei,
conforme bem quiser;
além, claro, dessa arte
(que merece um Molière)
de criar, para o alumbrado
jornalista da Folha,
de Veja, Globo e Estado 
como um roto estandarte —,
um teatro, frágil bolha,
em que ele é o centro, a estrela,
o rei sol da lapela.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

LITE-RA-RA-RA-TURA



Foi autor desse livro um Miguelzinho,
de intimidade anônima (ou nem isso).
E agora ouço dizer, num rebuliço,
que há romance também vindo a caminho.

No caso, me pergunto (ou adivinho)
quem se encarregará de tal serviço
e se a coisa é de fato e compromisso,
ou se é só mais um voo de passarinho.

Mais certo é que já esteja em gestação
um tipo de ave que só se alcandora
em poleiro acadêmico e pimpão.

Venha pois essa nova "labareda
de fogo", ou só laranja enganadora,
e diga o tempo se é menos azeda.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

OFERTA



Fofocas, gargalhadas, romance e diversão de montão: as estrelas da mídia encontram seu presidente
(Título de um artigo de Glenn Greenwald e Thiago Dezan)

Depois de ter vendido na internet,
a preço baixo, a massa cuja inhaca
daria enjoo a uma jaratataca,
chamando-a de "cheirosa" (um sabonete),

tentam vender agora, entre o confete
e a serpentina, o embuste (que ora empaca)
cujo apelo é medíocre e não emplaca,
dado o bodum que nele se repete.

Tentam fazer, joviais e sorridentes,
com uma intimidade de parentes,
passar por pílula um supositório,

oferecendo-o, na televisão,
por um preço imperdível de ocasião,
em programinha reles, de auditório.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

ADEREÇO




"Com tornozeleira, japonês da Federal volta a escoltar presos da Lava Jato"
(Notícia do G1)

“Faz parte do meu show”
(Cazuza)

Vai de tornozeleira ao compromisso,
que assim a pátria o exige, no momento.
E ademais é de urgência, espanto e vento, 
para quem quer mostrar, prestar serviço.

Vai de tornozeleira — é o novo invento
da jovem Pindorama, ou novo enguiço:
que, para dar à planta altura e viço,
lhe ponhamos também, na raiz, fermento.

Pois o entrudo precisa continuar,
seja onde for, mas seja sem parar —
para o sorriso, o choro, ou para a bile.

Ir de tornozeleira? — É só um enfeite,
um adereço a mais nesse desfile,
do qual talvez nem isto se aproveite.

sábado, 12 de novembro de 2016

A PÁTRIA (REVISTO)



Amavas com orgulho a terra em que nasceste,
mas agora vê bem, criança, onde te meteste!
Se ainda tens céu e mar, vê que o rio e a floresta 
chegaram a um impasse ou triste fim de festa —
e a Vale fez um belo estrago no caminho.
A riqueza do chão? Foge qual passarinho,
pelos gringos levada, astuciosos e lestos, 
que do petróleo só te deixarão uns restos!
E essa grande extensão de matas? Olha bem
se não vão devastá-la e vendê-la também!
Boa terra. Mas hoje a quem sua e trabalha
quer negar teto e pão e oferecer mortalha…
Querem da previdência um negócio fazer
privado, cujo intuito é lucrar e render,
e substituir a lei do trabalho, regrada,
pela lei de quem tenha o mando da rodada;
e a educação, que já não era das melhores,
vão transformá-la num ringue de contendores!
E a polícia, que agora algema o adolescente
e o leva em cana, como um rude delinquente?
(Isto, quando em civil passeata não se mete,
com bala de borracha e muito cassetete.)
E o ministro a dizer que o Estado não tem mais
que dar a todos saúde em condições iguais?
Ah, filho, agora só se fala a novilíngua
“neolibelesa” cuja regra é o pobre à míngua.
Quem, ingênuo, marchou na Avenida Paulista
pediu e recebeu — um governo golpista!
— Ai, criança! para achar outro país como este,
só se morasses lá no poeirento Velho Oeste!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

DESEMBESTADO



Lá foi o promotor, desembestado:
sem provas, sem saber e sem gramática,
mas com uma convicção epigramática,
que há de arder sobre o lombo de um coitado.

Lá foi, como um cabrito azucrinado
que, por efeito de uma obscura estática,
teve visões que não confirma a prática,
mas que o juiz aceitou, como um forçado.

Tais são de Pindorama as novas leis
que da alucinação tiram seu sumo,
capaz de envenenar papas e reis.

E tal, nesta hora grave em que até o diabo
teme exibir os chifres ou o rabo,
a nova regra, que aqui mal resumo.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

DISCORDÂNCIA



(poema quase prosa)

A coisa mais normal do mundo
é discordar da justiça.
(Eu discordo, inclusive, da divina —
por que não?)
E, se não fosse verdade,
não haveria contestação às decisões
dos senhores juízes,
bem como não existiriam
os advogados
para defender
o réu.

Diante da lei, meus senhores,
o primeiro a discordar do juiz
é o réu. (Quem não concorda?)
E por que não?
Vê-se, pois, que discordar
é uma forma lúcida
de existir
e de estar ao lado da
justiça
quando ela não sabe
para onde ir.